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Vislumbre da grande crise

por Luís Naves, em 28.07.15

Publicado originalmente no Delito

Fomos para Roszke pela estrada principal, que conduz até à maior passagem para a Sérvia naquela parte do país e como havia por ali patrulhas da polícia, não vimos colunas de refugiados. À vinda da boda, às duas da manhã, em vez de seguirmos pela estrada curta, demos de novo a volta, atrás do carro do Laci, que disse escolher o caminho longo para evitar os peões que provavelmente caminhavam na via menos vigiada. À noite, disseram os meus amigos, havia grande perigo de acidente e ninguém queria arriscar um atropelamento.
No hotel, em Szeged, o único sinal da crise eram os jipes da polícia da Sérvia e da Roménia. Vimos também patrulhas conjuntas e a situação contrastava um pouco com o cenário do Natal, quando nas noites geladas já eram visíveis grossas filas de gente a caminhar pelas estradas. Nessa altura, o policiamento pareceu-me mínimo, mas a maré de refugiados subia depressa, embora ainda ninguém falasse em erguer uma barreira.
 

A crise decorre em plena canícula. No domingo, o dia seguinte à boda, as notícias sublinhavam que na véspera tinham sido interceptados mais de 1300 ilegais na fronteira com a Sérvia. Não foi um dia excepcional. Estes refugiados precisaram de caminhar dezenas de quilómetros num calor insuportável, isto após a longa travessia dos Balcãs, de comboio, a pé e de autocarro, que os grupos fazem ao longo de dias ou até talvez semanas, ignorados pelas autoridades locais, que deixam passar a onda para se verem livres dela.
Na sua maioria, estas pessoas são vítimas da guerra da Síria, mas há afegãos, iraquianos e também africanos em fuga de zonas de conflito, nomeadamente Somália, Sudão ou Eritreia. As vagas de gente atravessam a Turquia, a Bulgária, muitos tentam entrar na Grécia, outros seguem pela Macedónia e Sérvia, até chegarem à fronteira húngara, que é também a fronteira do espaço Schengen, onde podem pedir asilo e, por lei, têm de ser protegidos e alimentados. De acordo com a regras europeias, o custo diário per capita para alimentar os refugiados ascende a 20 euros e o processamento dos pedidos de asilo pode durar meses. Isto introduz ainda maior desespero nos imigrantes, pois o seu destino final, em quase todos os casos, é a Alemanha ou a Áustria.

Ninguém sabe ao certo quantas pessoas estão em movimento, mas há quem fale em 4 milhões, só no Médio Oriente, com 10% a chegarem aos países Schengen, nomeadamente Itália, Grécia e Hungria, o que permite calcular um número possível de 400 mil refugiados em 2015, sobretudo em duas rotas, uma pelo Mediterrâneo e outra pelos Balcãs. Alimentar estas pessoas, caso se confirmem os números, custará 8 milhões de euros diários (cerca de 3 mil milhões de euros anuais), sendo necessário construir campos e arranjar trabalho. A Hungria, com população semelhante à de Portugal, afirma ter quase 100 mil refugiados, pois só entre Janeiro e Julho chegaram 80 mil. Em Itália e Grécia, o número é semelhante, mas muitos passam pelas malhas da vigilância policial e são detectados apenas na Áustria e Alemanha: legalmente, têm de ser devolvidos ao primeiro país do espaço Schengen por onde passaram, o que cria conflitos adicionais. Entretanto, um plano da Comissão Europeia propôs a distribuição pelos restantes países da UE de uma pequena quantidade dos refugiados que entraram pela Grécia e Itália, aumentando as divisões sobre o assunto.
Budapeste aprovou recentemente a construção de uma vedação que está a ser contestada pelos parceiros europeus, apesar de já haver algo semelhante em Ceuta. O design encontra-se em fase de testes, mas poderá consistir numa cerca em arame, com altura de quatro metros e o topo em arame farpado, a instalar apenas na fronteira com a Sérvia, sobretudo em bosques e zonas rurais isoladas, no exterior das passagens oficiais, que são mais policiadas. Estão também a ser instaladas sofisticadas câmaras de vigilância, mas é provável que a vedação falhe o objectivo, pois os refugiados tentarão entrar na Hungria através da Roménia e da Croácia, que são membros da UE mas não pertencem ao espaço Schengen, passando depois pela fronteira húngara com estes países, muito mais extensa do que a fronteira com a Sérvia. Assim, ao chegar à cerca, a rota de migração em massa vai partir-se em duas menores, que tentarão flanquear o obstáculo. Na Hungria, o processo de construção da vedação é pacífico e só ouvi elogios; a oposição socialista foi inicialmente contra, mas entretanto calou-se.
Alguns artigos portugueses sobre o tema fazem comparações absurdas, por exemplo com o muro de Israel erguido nos territórios ocupados ou a equivalência com a Cortina de Ferro, que visava manter pessoas dentro, não de as impedir de entrar. O governo português também fez considerações politicamente correctas, mas assumindo parte limitada de responsabilidade por um problema que obviamente é europeu. Veremos o que será dito quando a crise se agravar, enquanto não existe vedação e ainda estiver bom tempo, tornando-se inevitável que os números aumentem e seja necessário partilhar o esforço de receber estas pessoas. Em tudo isto, há apenas uma certeza: a massa humana que caminha na direcção da Europa está em desespero e não tem mais nenhum sítio para onde ir.

 

publicado às 19:37




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