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Pedaços do mundo e grãos de areia
Filmes antigos restaurados por IA circulam com abundância nas redes sociais. Vemos cenas urbanas, com cem anos, oitenta anos: pessoas com vestes estranhas e chapéus bizarros olham para a câmara, andam pelas ruas com tranquilidade, alheias ao trovão da história que se aproxima delas. É comovente ver aqueles inocentes, felizes da vida, à beira de catástrofes, prosseguindo os seus afazeres. E penso: estas pessoas viveram até à velhice ou foram atropeladas pelos acontecimentos que não podiam antecipar, mas que estão a poucos meses de distância, ou poucos anos, destas imagens pacatas? Dias antes de um conflito rebentar sem remédio, multidões pacíficas cantavam em coros e vendiam nos mercados, iam à missa ou à sinagoga, amavam, estudavam e trabalhavam, escutavam o sermão e liam em casa, passeavam de comboio e andavam pelos parques. O mundo ia mudar, mas eles não sabiam que a civilização era frágil. Alguns tinham meses para viver e não podiam imaginar que em breve aquelas praças, aqueles edifícios, tudo estaria em ruínas. Seremos talvez como eles, cantamos em concertos de Natal sem sabermos que será porventura o último, circulamos serenamente nas ruas ameaçadas por bombas atómicas.