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Veia lírica

por Luís Naves, em 07.11.15

Uma característica da política portuguesa tem sido a irrupção de episódios líricos onde as nossas elites demonstraram elevada tendência para se desligarem da realidade. Vivemos um desses momentos. A comunicação social tem reagido de forma dócil à possibilidade de haver em Portugal um governo minoritário do Partido Socialista, que perdeu as eleições e será suportado por forças políticas que sempre combateram o próprio PS. As ambíguas informações sobre o hipotético “acordo” da frente das três esquerdas indicam que até o programa económico que os socialistas tinham apresentado aos eleitores parece estar devidamente enterrado. As cedências socialistas terão sido profundas.

A direita, por culpa própria, não tem imprensa nem intelectuais. Erguem-se algumas vozes isoladas a denunciar uma golpada política que seria improvável numa democracia madura, mas é tudo suave, gerando nas redes sociais imediatas vagas de insultos dos charlies de serviço. O país do facebook não tem nada que ver com o país que votou a 4 de Outubro. E quando surgir de novo a perda de credibilidade externa ou a segunda falência consecutiva, todos dirão que não tiveram nada a ver com a aventura. O desrespeito pelos eleitores é descarado, embora ninguém se vá lembrar disso quando regressarem as lágrimas de crocodilo sobre o aumento da abstenção.

Um governo sem legitimidade política, apoiado apenas por dois partidos que passarão o tempo a afiar as facas ou a fazer chantagem, terá apenas a ilusão de governar e de bater o pé aos credores. Haverá muitos sonetos épicos, chinfrineira e bravata, mas o país já antes viveu filmes como este: no fim da monarquia, no estertor da primeira república, no apodrecimento do estado novo, no gonçalvismo.

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publicado às 14:50




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