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Uma questão de honra

por Luís Naves, em 31.03.15

Era uma ruiva espigada, que se chamava Martine. Mas tínhamos para ela uma alcunha, urubu, por causa do pescoço longo, o penteado esquisito e as finas pernas de pássaro. Por vezes, ficávamos a vê-la, nas tardes passadas no café junto da estação de comboios. Vinha com amigas, o que era raro, ou andava com um namorado novo Acho que existe uma designação para este tipo de mulheres: era licenciosa, mas as razões para tal ligeireza nunca as conheci. Divertia-se assim, suponho.
Soissons é uma cidade (como posso dizer?) chata. Nunca há nada de jeito para fazer. Os velhos ficam em casa a ver televisão e a juventude anda pelos cafés; mas os franceses não gostam, assim ficam só os árabes num canto, sem raparigas, sempre a papaguearem aquela algaraviada deles, e nunca metem conversa; e nós, os portôsse, também num grupo fechado, mas suponho que ninguém repara, porque somos bem comportados.

 

Conheci a Martine quase por acaso, estava ela entre namorados. Fui de comboio a Paris e quis a sorte que também viajasse. A viagem foi rápida, mas deu para nos conhecermos. Não tinha conversa, ria-se muito das parvoíces que inventei, mostrava os dentes desalinhados e os olhos azuis tinham o aspecto de vidro fosco, como se a inteligência não brilhasse por ali. Ou foi o que eu quis ver naquela mulher de pele muito branca, lábios carnudos e cabelo estouvado. Um dia, apareci em público com ela. Chegámos ao café de braço dado, porque para mim já era um namoro sério. Ainda pensei em sentar-me na mesa dos portôsse, mas os meus amigos olharam-me com gozo, um deles ria-se de mim e disse em português: “olha p’ra aquele maluco do Jorge, anda a comer a Urubu”. Ouviu-se bem e riram todos, às gargalhadas. Até Martine, que pensei ser bastante estúpida, percebeu que os meus amigos se riam de nós, de mim através dela, mas sobretudo dela por meu intermédio; e que por isso eu não iria apresentá-la aos outros do meu grupo. Foi assim, suponho, uma pequena cobardia, não fazer alguma coisa. Os árabes também me trataram com desprezo, esses não se divertiam, mas pareciam censurar-me pelo rebaixamento. Era a primeira vez que faziam isso, olhar para mim, e por extensão para os meus amigos, de cima para baixo.
Foi por este primeiro choque, inteiramente por ele, que deixei de andar com a Martine. Durante umas semanas não apareci no café. Ainda tentei manter encontros furtivos com ela e quase namorávamos às escondidas. Cheguei a levá-la a um daqueles hotéis manhosos usados pelas prostitutas. Foi a única vez que fizemos sexo. Mas nunca mais a segurei pelo braço na rua e evitava aparecer em lugares na sua companhia.
Uma vez, ela foi ao café junto da estação e lá estava eu a conversar com os meus amigos. Urubu aproximou-se e eles começaram a gozá-la. Os árabes, ao fundo, vigiavam a minha reacção, divertidos. Desdenhavam de nós. Mas eu não me mexi. Fingi que não a conhecia e ela foi como se ignorasse a minha indiferença. Deu meia volta e regressou ao balcão, ficou lá a conversar um bocado com o empregado. Bebeu qualquer coisa, depois saiu, sempre a sorrir, sem olhar mais para nós.
Quando nos encontrámos nessa noite, na escuridão segura do jardim, Martine não mencionou o caso. Eu esperava que ela fizesse uma cena e cheguei a pensar que não me teria visto, enfiado no grupo de rapazes que a gozavam. Mas, enfim, isso era absurdo. Ainda bem que não levantou a questão, porque eu não tenho a certeza se seria capaz de lhe explicar que tudo aquilo, a minha impassibilidade, tinha sido uma simples questão de honra.
Foi aquela a última vez que nos vimos. Lembro-me ainda da despedida. Na escuridão, ela disse: “Tens de sair daqui”. E eu ri-me, por não levar aquilo a sério. Depois, Martine saiu da minha vida. Foi para Paris, suponho. Nunca mais soube dela. Para mim, ficará sempre a lembrança de uma rapariga maluca e magra, o cabelo espetado em hastes e o pescoço branco e elegante, ligeiramente esticado, como o de um pássaro que se prepara para levantar voo.

 

Conto publicado em 2006

 

publicado às 18:31




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