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Uma polémica antiga

por Luís Naves, em 09.04.15

Nesta crónica de Rui Bebiano é recordada uma polémica literária de 1975, na qual Agustina Bessa-Luís fez uma corajosa intervenção, dizendo que não queria ser condescendente com a “cultura fácil e acessível”, em oposição aos que defendiam a cultura ao serviço das massas. A crónica toca em vários temas interessantes e, no fundo, ainda estamos na mesma discussão: a cultura de massas que a escritora criticava é dominante, existindo uma arte oficial e mediática que resiste a tudo o que pareça contra a corrente. A contaminação ideológica tornou-se a norma e os artistas estão conscientes de lhes ser exigida certa previsibilidade, não apenas no que dizem, mas naquilo que fazem. Dou um exemplo: enquanto o regresso à narrativa é evidente em outras literaturas, entre nós este processo encontra ainda forte resistência, pois a crítica elogia a transgressão realista em escritores estrangeiros, mas torna invisível qualquer veleidade nacional de o fazer ou associa a reinvenção destas formas a um recuo.

A cultura de massas é falsamente vanguardista e praticamente unânime, sendo também incontroversa a ideia de que o artista não precisa de ser apoiado, antes pelo contrário, a sociedade detesta os subsídios e não compreende que a economia privada não pode sustentar uma arte vibrante. Em tempos de aperto orçamental, tornou-se banal a ideia de que a cultura é desnecessária e que as instituições são dispensáveis. Segundo esta visão minimalista, a arte tem de se alimentar no mercado, mas como os meios de comunicação de massas determinam o grau de visibilidade, estamos perante um círculo vicioso em que o critério mais superficial escolhe o que chega ao público. Em resultado, a inovação entra lentamente no sistema (quando o que se faz lá fora já não pode deixar de ser imitado) e as chamadas vanguardas duram décadas, repetindo experiências envelhecidas e rígidas.

publicado às 12:15


1 comentário

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De Rui Quinta a 15.04.2015 às 15:26

Bom tema e abordagem. Não sei se me tranquiliza saber que não é um problema apenas desta (minha) geração ou se perco a esperança numa sociedade que valorize a cultura pesada em vez da light. Preferencialmente, antes dos seus autores morrerem.

Cumprimentos,
Rui Quinta

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