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Uma ideia do passado

por Luís Naves, em 17.02.15

“A ideia da posteridade pertence ao passado”, afirma o escritor espanhol Javier Marias, nesta entrevista a El Pais, onde fala do futuro do romance e do cinema, da desigualdade económica ou da degradação da linguagem. A frase que escolhi refere-se à mudança rápida de todas as coisas. Ao fim de cinco anos de existência, o que antes era novo já não será mais do que passado remoto. Nas sociedades contemporâneas, as transformações decorrem em ciclos cada vez mais curtos. Na cultura, na política ou na economia, surgem constantemente vagas de novidades a tapar o antigo e obsoleto, fazendo triunfar o mediano e o medíocre. O autor lamenta a degradação do domínio da língua, o poder imenso das multinacionais e teme os efeitos das crescentes desigualdades criadas por um capitalismo insustentável e voraz, que consome recursos de forma perigosa. Tal como Javier Marias, muitos intelectuais têm falado destes temas em tom pessimista. Talvez seja uma manifestação de conservadorismo e de ansiedade em relação ao futuro, mas a rapidez da mudança não tem de facto precedentes e as suas consequências são, no mínimo, imprevisíveis. A aceleração do mundo só pode causar receio a cada um de nós, que somos os passageiros a bordo. O tempo estreitado é uma espécie de desafio contemporâneo, pois podemos afirmar que mal tivemos tempo para viver, que a nossa existência decorreu num sopro breve e demasiado distraído, que nada de concreto restou para a posteridade, pois essa, infelizmente, tornou-se uma ideia ultrapassada.

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publicado às 12:21




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