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Pedaços do mundo e grãos de areia

Rodrigo Ramos ficou desempregado e tinha outros defeitos sociais, era caucasiano, heterossexual e, ainda por cima, do sexo masculino. A sua existência, apesar de tudo, teria sido relativamente ignorada, por assim dizer, passando entre os pingos da chuva, não se desse o caso de ter vencido as mais recentes eleições um partido que levava mesmo a sério os problemas da equidade e diversidade, sendo que este partido fez uma coligação com outras formações de um vasto arco-íris do pensamento mais avançado e progressista.
Após as eleições, houve uma mudança na realidade estrutural, com onda de despedimentos e de novas contratações segundo a linha justa, mas o setor privado foi mais atingido pelo rigor com que o novo executivo encarava o assunto. No Estado também houve enorme razia, pois o anterior governo não fizera o trabalho de casa. Os polícias e militares receberam cinquenta fardas diferentes e as repartições públicas passaram a atender todos os contribuintes em 150 filas heterogéneas, mantendo-se o sistema de senhas, válidas por cinco meses, com prioridade para minorias.
O desemprego de Ramos deveu-se exatamente a esta mudança: foi preciso equilibrar as quotas no local de trabalho e, apesar de ser um bom profissional, o nosso homem foi substituído por uma pessoa de igual competência, mas pertencendo a um dos numerosos sexos alternativos. O empregador conseguiu dessa forma melhorar um pouco os seus indicadores de inclusão, que eram péssimos, não se livrando de pesada multa, por não ter nos seus quadros suficientes membros das 984 minorias registadas nos vários segmentos da diversidade.
Na qualidade de desempregado, Ramos enfrentou duas rondas de formação para membros da maioria opressora, onde o Estado tentou que aprendesse a melhorar as suas competências em matéria de diversidade, reconhecendo o carácter racializado e pós-colonial da sua perspetiva. Teve nota zero no exame, com desvios inaceitáveis, vestígios de ideias ultrapassadas de antiga pessoa e ceticismo em relação à ortodoxia.
Aqui começaram os problemas. A autocrítica de Rodrigo Ramos, na qual este reconhecia o caráter neoimperialista e burguês da sua postura, foi considerada pouco sincera pelos serviços de igualdade de género, sendo detetada uma tendência misógina e patriarcal, que colocou o jovem desempregado sob estrita vigilância da polícia de costumes e linguagem. Os problemas agravaram-se quando foram detetadas certas mensagens privadas que revelavam conduta desviante e machista, adesão às velhas estruturas de poder, além de pensamentos perversos de carácter heterossexual que colidiam com o paradigma neomalthusiano.
Foi nesta altura que as autoridades decidiram colocar Rodrigo Ramos num campo de reeducação. A medida era preventiva, para evitar o cancelamento, mas o governo tinha concluído que havia escassa diversidade na população prisional. Assim, foram libertados alguns membros da minoria facínora, equilibrando-se o caso com a entrada de pessoas que, não tendo cometido crimes de faca e sangue, apresentavam total incompreensão das novas regras de inclusão. Era bem melhor fechá-las longe da vista e procurar reabilitar todas aquelas ideias trogloditas, que foi o que aconteceu a Rodrigo Ramos, que daqui a dois anos já deverá estar inteiramente livre dos seus discursos de ódio.
imagem gerada por inteligência artificial, Night Café