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Um gesto demasiado lento

por Luís Naves, em 03.05.15

O momento deve ter durado segundos e ainda hoje está mergulhado num nevoeiro de irrealidade. Após várias peripécias, um grupo de radicais bósnios tentara matar o arquiduque Francisco Fernando, herdeiro do trono austro-húngaro. Sarajevo estava em festa com a visita desta importante figura, havia grande confusão nas ruas, e os conspiradores pró-sérvios tinham falhado miseravelmente, mostrando ainda maior incompetência do que o responsável pela segurança do arquiduque, o governador Potiorek.

É espantoso como se cometeram tantos erros naquele 28 de Junho de 1914: os motoristas não receberam informação sobre alterações de percurso, houve uma ordem de inversão de marcha que reduziu a velocidade da viatura, os polícias estavam de costas para a multidão, para não falar da estúpida visita do arquiduque à Bósnia, da inutilidade da visita a Sarajevo (os militares andavam em manobras e não foram proteger o cortejo oficial, para não sujarem os uniformes). Horas antes, falhara o atentado com bombas de má qualidade e um dos conspiradores, um revolucionário de segunda linha chamado Gavrilo Princip, começara a afogar as mágoas num café quando, de súbito, surgiu à sua frente, a poucos metros, quase parado, o carro que transportava o arquiduque, a sua mulher e o governador. A viatura estava na rua errada e tentava fazer marcha-atrás.

Princip não hesitou, sacou de um revólver e disparou por duas vezes, mas o segundo tiro terá sido ligeiramente desviado por alguém da multidão que se encontrava a seu lado e que, ao ver o revólver, tentou impedir o atentado. O segundo tiro matou a mulher do arquiduque e não devia ser para ela, mas para Potiorek. O ligeiro desvio podia ter ocorrido micro-segundos antes, e talvez o arquiduque não fosse atingido. Os espectadores impediram Princip de disparar pela terceira vez, espancaram-no e travaram o seu suicídio. E se tivessem sido mais rápidos? E o que teria acontecido se o anónimo que desviou o segundo tiro tivesse desviado o primeiro? Então, não teria ocorrido aquela guerra mundial com 10 milhões de mortos, depois toda a sequência de loucuras que reclamaram mais algumas dezenas de milhões de vidas. Seria mesmo possível travar a arma que atingiu em cheio o coração da Europa?

publicado às 13:52




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