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Toda a gente finge

por Luís Naves, em 01.05.15

No quadro mais vasto do abandono das ideologias, sempre me provocou espanto ver como alguns continuam a defender a pureza programática dos rótulos. As sociedades contemporâneas têm tal complexidade, que não há fórmulas políticas que possam responder a todos os problemas. A revolução de 1989 transformou em amálgama difusa fronteiras que estavam outrora muito bem definidas, mas nada verdadeiramente nos prepara para assistir à vergonha que alguns intelectuais mostram em aceitar o que são. Este texto do colunista espanhol do DN, Miguel Angel Belloso, é um exemplo cristalino desta esquizofrenia. Afirmando-se ‘liberal’, o autor assina um texto que só um conservador poderia escrever.

Hoje, qualquer comunista sabe que as sociedades comunistas resultaram em regimes totalitários; os socialistas já há muito tempo abandonaram o socialismo que lhes preenche os discursos; e os governos conservadores da direita tentam salvar o Estado social e dizem-se liberais, sendo criticados como neo-liberais. Toda a gente finge que é outra coisa. Na realidade, a Europa é um mosaico de experiências social-democratas. Os partidos tradicionais e as elites políticas concordam no essencial, que é manter o sistema, enquanto discordam na dose que cada política terá na respectiva aplicação prática. Os populistas de esquerda e de direita que contestam o capitalismo, a imigração e a integração europeia constituem o único desafio à ordem estabelecida. O descontentamento das populações com essa convergência das forças dominantes em direcção de certo vácuo ideológico é a maior benesse para os populistas, que ameaçam enclausurar ainda mais a discussão num enorme simulacro demagógico.

Num 1º de Maio, esta conversa leva longe: sim, toda a gente finge que defende a mudança, incluindo sindicatos, patrões, colunistas de jornal.

 

publicado às 13:28




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