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Território bárbaro

por Luís Naves, em 20.08.15

Já aqui se falou da infantilização da sociedade, da obsessão pelo novo e desprezo pelo que é velho. Somos belos e jovens, essa é pelo menos a imagem que se associa aos valores dominantes da liberdade e do sucesso. A infantilização é difícil de explicar, mas resulta provavelmente das nossas vidas protegidas: nos países avançados, as sociedades são hoje caracterizadas pelo triunfo de uma imensa classe média; ávidos consumidores com famílias pequenas; muito idênticos entre si, viciados em compras, gozam férias todos nos mesmos sítios e transferem os sonhos adiados para a geração seguinte. Na realidade, estas novas gerações crescem lentamente, em ambientes abrigados e afluentes onde não têm de fazer muito para garantir o seu bem-estar. No fundo, estamos a falar de um contexto paradoxal de dívidas elevadas e heranças significativas. E para mais, os belos não precisam de se esforçar.

Sendo tudo entre nós mais infantil, a cultura que privilegia o novo e, portanto, o efémero, tenta apagar o passado ou no mínimo desvaloriza tudo o que contradiga essa preponderância da moda. É menos falado do que os outros efeitos, mas seguindo esta lógica, conclui-se que vivemos numa espécie de crise da memória. Nunca houve tantos velhos e, no entanto, nunca se desprezou desta forma o passado, que olhamos sem qualquer dose de nostalgia, pelo contrário, até com certo desdém, como se olha para um território bárbaro.

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publicado às 19:25




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