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Terceira vaga

por Luís Naves, em 26.08.15

Resumindo coisas que li e ouvi nos últimos dias, a turbulência financeira mundial desta semana pode ter uma explicação preocupante, que vai muito além do abrandamento chinês.

O modelo concebido durante os anos 80, demasiado financeiro, facilitou a acumulação rápida de dívidas, a volatilidade dos mercados, crescimento insustentável e formação de bolhas especulativas, investimento débil e crédito a privilegiar o curto prazo. Este era um ambiente que travava reformas e que levava ao encurtamento dos ciclos políticos, beneficiando mensagens simplificadas e propostas demagógicas. Foram criadas importantes desigualdades sociais que levaram ao descontentamento de franjas significativas do eleitorado: os perdedores da equação.

O colapso desta realidade, em 2008, não ocorreu de um dia para o outro, nem sequer num único ano. Ela está ainda a ser substituída e, como todas as ordens desafiadas, tende a resistir. O próximo modelo de capitalismo e democracia não será construído sobre as ruínas do anterior, mas terá de incorporar muitos dos seus elementos. Ainda não é claro esse futuro e talvez surja um mundo hiper-globalizado (teremos muitas oportunidades para pensar sobre isto).

A queda do Lehman Brothers, em 2008, coincidiu com a primeira fase da grande crise, quando o sistema financeiro quase se arruinou, lançando uma recessão global que, por sua vez, causou um efeito de contágio no que se convencionou chamar ‘crise das dividas soberanas’ e que nos envolveu directamente, já que Portugal foi um dos países da zona euro forçados a pedir um resgate internacional. Esta segunda vaga parece hoje resolvida, apesar de haver ainda dúvidas, sobretudo em relação à Grécia, mas eis que surgem estes episódios de turbulência nas bolsas mundiais, que podem muito bem ser o início da terceira fase da grande crise, desta vez envolvendo economias emergentes e exportadores de matérias-primas. Se isto continuar, os preços vão baixar ainda mais, em busca do equilíbrio, e haverá abrandamento não apenas na China, mas em toda a Ásia, dificuldades no Brasil, Rússia, Índia, entre outros; ou seja, desemprego em países pobres e possível instabilidade política.

Entretanto, estamos a assistir a uma crise de emigração sem precedentes e existe a possibilidade de um El Niño particularmente destrutivo no final deste ano, que ameaça produções alimentares e populações vulneráveis. Talvez daqui a 30 anos olhemos para esta década como um período de ruptura particularmente perturbador.

publicado às 19:46




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