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Journal

por Luís Naves, em 01.05.18

A minha abordagem à escrita de um diário é jornalística e não é por acaso que este género em inglês se chama journal (o mesmo em francês). Interesso-me sobretudo pelos factos em meu redor, faço pequenas observações do quotidiano, coloco aqui as minhas opiniões e dou conta das notícias relevantes, à maneira de um testemunho do meu tempo. Admito que isto seja pouco interessante daqui a dez anos, como acontece com muito jornalismo. Ninguém se irá interessar pelas minhas opiniões menos certeiras ou por acontecimentos que faziam parte da espuma da minha época. Por outro lado, um diário sobre a intimidade ou sobre as pessoas que conheci seria uma perfeita sensaboria. A minha biografia não tem interesse, mas acredito que o relato do presente possa ser para mim uma boa leitura dentro de alguns anos, já que o futuro promete ser bem diferente daquilo que conhecemos. Ao ler estas páginas poderei olhar o passado entretanto esquecido, a espantar-me, dizendo em sussurro: «estão, isto foi assim»? poderei recordar que naquele tempo começava a falar-se da inteligência artificial e de vez em quando víamos um carro eléctrico a circular na estrada; foi quando começou a sério aquela cena do streaming nas televisões, ainda víamos canais à maneira antiga, mas só passavam intermináveis debates sobre futebol, em que indivíduos histéricos espumavam irritações a falar de um único lance durante horas; foi antes da terceira bancarrota, quase nem deu para recuperarmos da segunda; e lembras-te de como as pessoas se vestiam? do fast-food? dos sem-abrigo que se faziam acompanhar de cães e gatos de estimação? do presidente que era só beijinhos e selfies? (parece tão ridículo hoje, tão fora de moda, isso das selfies); e lembras-te de como se usavam tantas palavras em inglês (só neste texto já vão quatro palavrinhas)? e os filmes eram maus à brava e a excitação que havia com coisas péssimas, ao mesmo tempo que não percebíamos o que era bom; e os pedantismos que agora nos soam cómicos, os turistas parvos, a morte dos jornais, a especulação imobiliária, os terroristas barbudos que se lançavam de carro contra multidões, a ingenuidade pacóvia das conversas intelectuais? o pensamento mágico dos que ainda estavam no século anterior (ouço-os daqui, cgtp unidade sindical), a vaidade dos artistas que hoje já ninguém recorda, e ainda havia primaveras mas já eram mais curtas do que antigamente, lembras-te? passávamos do oito para o oitenta no tempo em que o diabo esfregava o olho?

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publicado às 12:41

Pequenos soldados

por Luís Naves, em 12.04.18

Nos jornais já não se escrevem crónicas de jeito e nos jornais online este género jornalístico está extinto. Há, pelo contrário, grande profusão do género opinativo, que também não é para todos, sendo apesar de tudo fácil fazer uma boa imitação. Para a reportagem não há dinheiro e a que se faz é sobre temas leves, quase sempre com a tese já programada. De facto, e por muito que me custe esta opinião, começa a ser difícil justificar a existência de jornais em papel. Para ler as notícias de ontem? Mas já vimos tudo nos portais de informação na internet, já lemos até os comentários nas redes sociais, demos uma vista de olhos na imprensa estrangeira online, vimos as televisões, por isso temos uma ideia muito precisa do noticiário básico. O que podia ainda diferenciar os jornais foi aquilo que desapareceu: a boa prosa, a história original que nenhum outro órgão apanhou, a opinião heterodoxa (mas certeira) e a crónica capaz de nos fazer ver a realidade de outra forma. Os jornais suicidaram-se e julgo que esta morte começou naqueles anos da concentração dos meios de comunicação em grupos económicos, como pequenos soldados em grandes exércitos ao serviço de enormes interesses.

 

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publicado às 18:39

Escândalos de Hollywood

por Luís Naves, em 04.03.18

Em véspera da cerimónia dos óscares, não é possível ignorar a extraordinária decadência a que chegou Hollywood. Não sei se é o infantilismo da Marvel, o politicamente correto, a violência ridícula ou algo de mais sério, mas olhamos para a lista dos óscares de melhor filme e não encontramos um vencedor de jeito desde 2003. Longe vão os tempos áureos, entre 35 e 44, onde nunca houve menos de duas obras-primas a disputar cada troféu. Em 1942, no óscar de melhor filme, venceu O Vale Era Verde e o derrotado principal foi Citizen Kane. Venha o diabo e escolha! Num único ano, concorreram duas obras inesquecíveis, que devem constar em qualquer lista honesta dos dez melhores filmes americanos de sempre. Em contraste, a partir de meados dos anos 70, o cinema americano passou a exibir uma mediocridade geral, pelo menos na lista de vencedores. Em 1975, o histórico Barry Lyndon perdeu para o histérico Voando Sobre um Ninho de Cucos. Em 76, imagine-se, Taxi Driver perdeu para Rocky. E em 1979, Apocalypse Now perdeu para a xaropada Kramer vs Kramer. A última película de qualidade indiscutível a ganhar o óscar de melhor filme foi O Senhor dos Anéis, em 2003, e o último escândalo remonta a 2006, com a derrota de Cartas de Iwo Jima por um filme chamado The Departed. Entre os vencedores, não há uma obra-prima marcante desde 1972, ou seja, desde O Padrinho, apesar das vitórias justíssimas de Imperdoável, em 1992, e do já referido Senhor dos Anéis, dois filmes brilhantes que, apesar de tudo, não têm a mesma importância do primeiro. Para mim, é um mistério: qual a razão do declínio? Hollywood já foi a grande máquina ideológica do mundo ocidental, mas agora é apenas uma maquinaria sem ideias. Há dinheiro, tecnologia e talento, mas os melhores produtos são apenas sofríveis ou engraçados; os piores, embora intragáveis, são muitas vezes os premiados.

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publicado às 14:00

Sobre os heróis de cada tempo

por Luís Naves, em 26.02.18

A cultura popular dominante tende a reflectir a forma como as pessoas se interpretam a si próprias e a maneira como encaram o mundo em que vivem. Se olharmos atentamente para a ideologia em pano de fundo nas histórias dos filmes relevantes de cada época, podemos encontrar, no período após a II Guerra Mundial, três grandes ciclos narrativos. Na primeira fase, que corresponde à reconstrução que ficou conhecida nos EUA por ‘Grande Sociedade’, as personagens positivas são geralmente indivíduos de força, construtores e pioneiros, que resistem à tirania e ao cinismo da mediocridade ou da ganância. A coragem, a resistência e a autoridade moral são os valores desta época de poucas ambiguidades, caracterizada pelo progresso, a confiança e o triunfo da ordem. No final dos anos 60 e início dos anos 70, ocorreu uma transformação social e os heróis deixaram de ser pessoas carregadas de certezas, passando a favorecer a ideia do rebelde que procura uma causa capaz de preencher o seu vazio. As ideias dominantes da cultura popular passaram a ser liberdade, solidariedade e contestação, e foi assim até à crise de 2008, que talvez tenha lançado um novo ciclo. Agora, a rebeldia e a liberdade não são propriamente ideias valorizadas, pelo contrário, parece que introduzem uma espécie de opressão do pensamento. Os heróis deste ciclo estão sobretudo desiludidos e divididos, terão problemas de identidade e serão forçados a escolher soluções menos individualistas: o seu eventual inconformismo será menos compreensível para o público. Esta nossa fragmentação implica que cada dose de realidade esteja amplamente contaminada por fantasias (não quer dizer que isso não tivesse acontecido no passado, o que significa é que hoje já não podemos dizer que uma realidade aceite como tal é mais autêntica do que outra qualquer). Estaremos talvez ainda à procura dos heróis do nosso tempo. O que os fará dar o peito às balas? Antes, foi a necessidade de vencer o totalitarismo, depois foi a solidariedade com os oprimidos. O que virá agora?

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publicado às 13:57

Velhice

por Luís Naves, em 20.02.18

Tornou-se de bom tom afirmar que os grandes romances são escritos aos 30 anos (veja-se a tendência nos prémios) ou que um líder partidário não pode ter mais de 40, embora não haja qualquer prova de que isso seja assim, pelo contrário, não faltam exemplos que desmentem tais preconceitos. O mesmo princípio aplica-se mais ou menos a tudo o que mexe, à moda, aos padrões de beleza, ao entretenimento, aos actores, à música, à opinião ou ao jornalismo: vivemos numa obsessão pela novidade e a carinha laroca, preferimos a espuma das coisas ou a leveza adolescente. Uma sociedade envelhecida despreza tudo aquilo que resulte da sua experiência e procura o que não tem, que é juventude, enquanto mergulha no caminho da senilidade e da paralisia institucional, incapaz de mudar. Estamos a destruir a memória e deixámos de nos preocupar com o futuro. Temos uma população onde haverá imensos velhos depauperados, incapazes de pagar os cuidados de que vão necessitar e cujas poupanças foram e serão destruídas nesta crise e na próxima. Nem quero pensar no fardo da próxima geração, mas o que já vemos é a indiferença em relação à violência sobre os idosos, em simultâneo com a indignação extrema em relação a coisas de nada, como é próprio de quem não deseja enfrentar o vazio que está ali à frente, mas viver somente no conforto ilusório do outono.

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publicado às 19:20

Uma sociedade de velhos

por Luís Naves, em 19.02.18

Cada vez ouço mais pessoas da minha geração a dizerem que tentam chegar à idade da reforma sem penalizações e conheço novos casos em que isso se revela difícil. É sem dúvida um dos grandes paradoxos do nosso tempo: menos jovens terão de pagar as pensões de uma geração numerosa e em rápido envelhecimento. A sociedade portuguesa terá uma massa de velhos extremamente empobrecidos e não conseguirá pagar o sistema de segurança social segundo as actuais regras. Por outro lado, não nos permitem prolongar a carreira contributiva (o que devia ser deixado ao critério de cada um, com as devidas compensações) e não nos deixam sequer concluir a carreira, o que implicará cortes drásticos nas reformas ou impostos insustentáveis. Aos 50 anos, um trabalhador é considerado dispensável, isto aplica-se a todas as áreas: políticos, académicos ou artistas de 60 anos estão ultrapassados, apesar de estarem no topo das suas capacidades. Nas empresas, os mais antigos são os primeiros na lista de despedimento; em todas as actividades, os mais experientes são os primeiros a ser esquecidos. O problema da segurança social estará provavelmente resolvido, mas de que vão viver os velhos pobres? Não conseguem poupar nem concluir a carreira contributiva, terão pensões miseráveis e ninguém os quererá empregar em idade avançada.

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publicado às 19:07

O nosso tempo

por Luís Naves, em 23.01.18

O nosso tempo compara com o final do século XIX e viragem para o século XX, época com desenvolvimento acelerado, descontentamento das classes trabalhadoras, crescimento das desigualdades sociais, equilíbrio de poderes entre as grandes potências, império sobre as restantes. É curioso verificar que as elites de 1890 encaravam o exercício do poder da mesma forma que as actuais, como se houvesse uma ordem natural que tinha de ser respeitada, independente da vontade eleitoral dos povos. Isso talvez explique a disciplina dos interesses (políticos, financeiros, mediáticos) que dependem da estabilidade política. As duas épocas também coincidem nos elevados índices de bem-estar da oligarquia, na melhoria acentuada das condições de vida da classe média, na explosão de ideias científicas, na pujança da cultura popular e na enorme diversidade de propostas artísticas. Distantes um do outro em cerca de 120 anos, estes dois períodos coincidem na euforia financeira, no entusiasmo pelas inovações, no optimismo inocente de quem acredita no progresso infinito, também nas divisões entre liberalismo e populismo, entre nacionalismo e internacionalismo, no conflito entre a vontade das elites e das massas, na tensão entre abertura ao comércio e fecho de fronteiras. No final do século XIX, rejeitava-se tudo o que parecia velho e clássico, abraçava-se o que fosse novo, incluindo a ideia de criar um homem melhorado, antes pela educação, agora pela genética. As duas épocas talvez acabem por se distinguir uma da outra nos resultados: no passado, após três ou quatro décadas de grande aceleração económica, artística e científica, as potências europeias entraram em guerra e suicidaram-se. A civilização bateu com a cabeça no tecto. Desta vez, as elites tentarão escolher outras estradas, passando entre as gotas da chuva, ultrapassando os obstáculos, fazendo cedências, talvez descobrindo tecnologias que nos permitam subir de patamar. Em 1914, as desvantagens de uma guerra eram de tal forma evidentes, que ela parecia impossível. Agora, diz-se o mesmo, mas talvez seja verdade.

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publicado às 11:33

Teoria da domesticação

por Luís Naves, em 09.01.18

Instalou-se a ideia perversa de que os jornalistas têm de ser bacteriologicamente puros, um pouco como acontece com os eunucos no harém, não lhes sendo permitida a opinião, a tendência, a defesa de uma causa ou a simples frontalidade, estando aberto somente o caminho da intriga e da dissimulação. Segundo esta tese, as notícias não têm preferência, como se houvesse fórmulas matemáticas para a sua escolha, como se o jornalista fosse despido de emoções, como se ele não tivesse o direito e até a obrigação de defender, por exemplo, a justiça e a liberdade. Em vez da prosa sem alma, o trabalho do jornalista consiste em estabelecer a relevância relativa dos factos e depois, tentar ficar o mais próximo possível de uma leitura autêntica do mundo, ou seja, contando a história com um máximo de honestidade e espírito livre. Quem não compreenda que o jornalismo é sempre uma versão da realidade acredita no futuro do jornalismo burocrático, supostamente equidistante de tudo, embora a equidistância de tudo seja um lugar inexistente. Claro que há na profissão quem confunda relevância com militância, mas fazer propaganda ideológica nunca teve nada a ver com jornalismo e os leitores têm sempre a liberdade de mudar as suas fontes de leitura. Ou seja, a crítica ao jornalismo de causas baseada em exemplos de acção militante é um tiro ao lado e transforma-se facilmente na defesa da escrita dependente e funcionária que os poderes desejam e que os leitores rejeitam. Esta teoria da domesticação dos meios de comunicação é o velho sonho das oligarquias e a polémica sobre as chamadas fake news não passa de mais um episódio sofisticado desse combate. Têm surgido pequenas tentativas de limitar noticiários ou de legislar sobre o tema, supostamente para aniquilar as chamadas notícias falsas, cujos exemplos, muitas vezes, não passam de interpretações inconvenientes. As elites acham o público estúpido e acreditam que ele necessita de condução inteligente, serão obviamente essas vanguardas políticas a decidir sobre a pureza dos noticiários. A fragmentação mediática (que tem complexos motivos económicos e tecnológicos) ainda está na sua infância e tornou mais difícil a tarefa de colocar mensagens do poder. Governar é hoje mais incerto e a opinião pública está mais dividida, mas a realidade é a inversa daquela que se discute: as fake news são tão velhas como a imprensa, pois sempre houve boatos, desmentidos e manipulação; o que é novo na comunicação contemporânea é a impossibilidade crescente de se esconder informação do público.

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publicado às 12:24

Loucuras

por Luís Naves, em 06.01.18

Sinto crescente dificuldade em entender certas coisas que se publicam nos jornais, como a notícia austríaca sobre a primeira bebé do ano num hospital de Viena. Sendo filha de um casal de imigrantes muçulmanos, a recém-nascida teve direito a insultos anónimos, um dos quais (dizia-se no texto) a sustentar que ela merecia ser morta. Tudo isto vinha ilustrado por uma foto onde se via o simpático casal de progenitores (a jovem mãe de véu islâmico), ladeado por uma médica e uma enfermeira sorrindo também com ar simpático e, no centro da imagem, a pequena cria, a única que já estava com ar preocupado. O problema é que cada idiota tem hoje direito a dizer sem filtro as maiores barbaridades nas redes sociais, em nome da liberdade de expressão que essas cavalgaduras não aceitam senão para si próprias. Que alguns imbecis não vissem ali o milagre da vida diz mais que mil compêndios sobre a doença civilizacional que nos devora.

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publicado às 19:24

Um resumo

por Luís Naves, em 15.10.17

Em resumo, ocorreu um autêntico assalto ao Estado, com destruição de riqueza em escala colossal. Houve conluio entre certos banqueiros e políticos, visando a apropriação de milhares de milhões de euros, consumada à vista de uma classe dirigente que preferiu olhar para o lado. O dinheiro volatilizou-se e certamente haverá fortunas secretas, estacionadas em paraísos fiscais. Portugal foi esfolado vivo, a classe média pagou a factura, incinerada neste processo, as corporações reforçaram o seu domínio e a sociedade civil está de rastos. A grande crise foi, no essencial, uma imensa transferência de riqueza pública para as mãos de elites corruptas, além da destruição pura e simples de riqueza acumulada durante décadas. Tudo isto foi feito com a complacência e participação dos partidos, incluindo a acumulação de dívidas brutais, acordos ruinosos de parcerias público-privadas, contratos com regras tóxicas, bancos que enganaram clientes e empresas que pagaram luvas para obter privilégios em concursos. Não sei como é que no futuro se irá olhar para este período negro da nossa democracia, mas julgo que as futuras gerações se espantarão por o regime ter sobrevivido à escandalosa omissão das instituições e à extensão de todas as histórias mal contadas, que o tempo se encarregará de revelar no seu esplendor. O plano dos oligarcas era controlar a política, a comunicação social, a justiça, a máquina do Estado e o capitalismo de compadres. E esse plano de poder só falhou porque houve a bancarrota. Não há nada de parecido na nossa História, nem o caso Alves dos Reis, na agonia da I República.

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publicado às 21:39



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