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Declínios

por Luís Naves, em 21.04.18

A sociedade laica parece estar a desenvolver uma forma de pensamento mágico que a faz desviar-se de todos os problemas, como se eles não existissem ou pudessem milagrosamente resolver-se pela inacção. Talvez isto seja próprio daqueles países que envelhecem sem se dar conta ou seja próprio daquelas oligarquias à beira da revolução ou catástrofe e que ainda se entretêm numa existência alheada e aparentemente doce, onde os ódios são contidos e as palavras estão sempre cheias de ambiguidade educada ou de um vazio encantador. Assim eram as bolhas aristocráticas antes da revolução francesa ou da burguesia europeia antes de 1914: o reino da hipocrisia, cheio de regras para iniciados e onde já ninguém dizia o que pensava, mas falava em código. Agora, existe algo de semelhante: triunfa uma classe global que jamais diz o que pensa e deseja apenas que o sumptuoso declínio permaneça sob uma belíssima iluminação crepuscular.

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publicado às 12:39

Fundos comunitários

por Luís Naves, em 13.02.18

Em Portugal instalou-se um mini-debate sobre o próximo pacote de fundos comunitários (para sete anos), que os líderes europeus vão discutir nos próximos dez meses e que entra em vigor em 2021. O que desencadeou a conversa foi uma proposta, apresentada como sendo de António Costa (na realidade, é tirada a papel-químico das ideias da comissão e do parlamento) de aprovar três impostos europeus, sobre economia digital, empresas poluentes e transacções financeiras. Ao aderir tão de perto a ideias que já circulam, Portugal reduz a sua capacidade negocial, não terá cedências para fazer e aceita tudo o que vier da negociação. O Brexit implica uma quebra nas receitas: sem o contribuinte líquido Reino Unido, haverá menos dinheiro para distribuir pelos países que recebem do orçamento mais do que pagam. Tendo regiões acima de 75% do rendimento médio per capita, Portugal terá menos dinheiro do que nos anteriores pacotes, pois as verbas tenderão a beneficiar os países de leste, mais pobres e que prometem negociar com dureza. Além disso, o essencial do orçamento comunitário sustenta a agricultura, sobretudo a francesa, sendo pouco provável que esse bolo se reduza sem resistência da França. A saída dos ingleses equivale a 10% das verbas, portanto, só há duas soluções: impostos europeus ou aumento da percentagem que cada país paga, de 1% do PIB para pelo menos 1,1%. No segundo cenário, os países contribuintes líquidos vão exigir qualquer coisa em troca. Por seu turno, a ideia de impostos que Lisboa apoia tem vários problemas. O da economia digital visa multinacionais americanas e terá a devida retaliação comercial de Washington (pode fazer enormes estragos); o das transacções financeiras contradiz a ambição de franceses e alemães de absorverem parte do negócio da City de Londres, no mundo pós-Brexit; e o das empresas poluentes é pago pelos países mais atrasados da União, aqueles que precisam de fundos exactamente para acabar com as empresas poluentes. Ou seja, isto vai acabar por ser um aumento da contribuição dos países e Portugal, com os seus crónicos problemas orçamentais, acabará provavelmente por pagar mais para os cofres europeus, recebendo menos das políticas comunitárias (é preciso não esquecer que as contribuições nacionais, calculadas em função do PIB per capita, representam 70% das receitas). A alternativa ao aumento da contribuição nacional será a redução de todos os programas europeus, a começar pela agricultura, que absorve 40% dos 140 mil milhões de euros anuais do orçamento. Haveria ainda a hipótese de diminuir as ambições da UE, mas os líderes pretendem avançar na direcção oposta, querem adicionar a segurança e as migrações a uma longa lista de programas comunitários onde constam energia, emprego, formação, alterações climáticas, ajuda externa, inclusão social, inovação, ciência, entre muitos outros. Em resumo, entramos na fase da política a sério, onde o interesse nacional será determinante e a EU terá de fazer uma escolha estratégica, se quer ou não ceder mais poderes e dinheiro à estrutura supranacional.

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publicado às 19:04

A Revolução Russa

por Luís Naves, em 02.02.18

Leitura fascinante do livro de Orlando Figes sobre a revolução russa, Tragédia de Um Povo, onde se mostram os efeitos cruéis de uma sociedade em colapso, refém da loucura de uma pequena minoria mobilizada. A leitura coloca problemas difíceis: que mundo produziu alucinados como Lenine? Será possível que estas derrocadas se repitam? Será a vertigem pelo totalitarismo assim tão invulgar? O facto é que a história desta revolução, pelo menos na sua fase mais absurda (entre Fevereiro e Outubro de 1917) é também uma lista de pequenos episódios em que um detalhe minúsculo, resultando de outra forma, alterava toda a sequência. Os bolcheviques podiam ter sido esmagados, absorvidos por outras forças, obrigados a partilhar o poder. Os monárquicos tiveram pelo menos uma oportunidade para tomar as rédeas da situação e todos os partidos subestimaram os adversários mais perigosos, preferindo a inacção face aos comunistas, em vez do apoio a alguém moderado. Se o golpe de Outubro tivesse sido adiado por apenas alguns dias, Lenine teria provavelmente sido suplantado por Kamenev e Zinoviev (as duas futuras vítimas prioritárias de Estaline) e embora o regime comunista pudesse ter existido, a sua natureza teria sido provavelmente menos brutal. Da parte dos socialistas e dos partidos burgueses, houve traições, mal-entendidos, hesitações fatais, cobardia, erros, simples estupidez. Lenine triunfou porque Kerensky era fraco, iludido ou medroso. Os bolcheviques foram um pouco mais disciplinados e não tiveram escrúpulos em usar a brutalidade e a demagogia contra todos os outros. A violência foi aplicada sem limitações, pois Lenine desejava a guerra civil, mecanismo que facilitava a implantação do seu modelo de sociedade, uma visão fanática e totalitária do exercício do poder. O que mais espanta nesta história é a ingenuidade, fraqueza ou impotência de tantos políticos profissionais, a ilusão em que caíram as massas e a fácil manipulação dessa credulidade popular, que foi aliás um processo quase de substituição religiosa. A revolução russa foi um gigantesco suicídio colectivo e, sabendo-se que a inteligência das pessoas não mudou em cem anos, é impossível não ter dúvidas sobre a estabilidade das actuais estruturas políticas: serão tão sólidas como parecem?

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publicado às 18:58

A desagrageção e os fracos

por Luís Naves, em 08.01.18

Há sinais crescentes do desvario entre os políticos. Deve ter um motivo forte e não pode ser apenas o extremo interesse dos meios de comunicação e redes sociais por tudo aquilo que se diz no universo tão peculiar dos dirigentes fracassados. É que não existe frase infeliz que não se conheça imediatamente. Talvez estes sinais de loucura provem a ascensão desproporcionada dos maus políticos, que impedem o aparecimento dos autênticos talentos que a sociedade contemporânea vai cilindrando em larga escala nos labirintos da mediocridade. É uma explicação razoável, que permite justificar a proliferação de tantas nulidades. Há também a hipótese de estarmos a assistir aos primeiros momentos da desagregação das democracias, dilaceradas entre ideias radicais e populismo. As classes médias que sustentaram os regimes liberais estão desiludidas porventura com a falta de liderança que encontram nos seus fracos governantes. E sabemos como fracos reis fazem fraca a forte gente. É por isso que tudo anda mais crispado e parece fragmentar-se, numa espécie de guerra civil de baixa intensidade que vai largando em pequenas doses toda a energia que a desilusão acumulou, a que se junta o medo da mudança repleta de ameaças. Talvez a melancolia contemporânea esteja também ligada ao envelhecimento precoce das sociedades, e não será toda a velhice uma mistura de esquecimento involuntário e memória nítida de um passado idealizado?

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publicado às 19:26

Questões de liderança

por Luís Naves, em 04.12.17

Houve sempre contestação e protestos, mas no pó-guerra a protecção americana garantiu aos europeus setenta anos de paz e progresso económico. A relação entre as duas margens do Atlântico nunca foi isenta de problemas, mas a actual liberdade dos europeus deve-se em grande parte à tutela americana. Essa liderança ainda existe, pelo menos na cultura popular, e mantém-se a parceria política, mas algo mudou na relação, e a mudança começou antes de Donald Trump, talvez durante a Grande Recessão. Esta aliança entre europeus e americanos entrou agora no seu ocaso, pois Washington assumiu uma nova estratégia e aceita uma ordem mundial diferente, baseada no equilíbrio entre potências e com um lugar de destaque para a China. Em vez de carregarem todo o fardo do homem ocidental, os americanos aceitam desligar-se de alguns conflitos regionais e admitem que o Japão ou a Europa tenham as suas próprias ambições. Esta mudança é lógica, mas o mundo em que nos habituámos a viver deixa de existir. É possível que na próxima geração os europeus sejam forçados a lidar sozinhos com a sua vizinhança, sobretudo com Rússia e Turquia, sobretudo com o perigoso Médio Oriente. Sem os britânicos, essa Europa será continental e, pela primeira vez, haverá uma hegemonia estável, no caso uma organização, a União Europeia, liderada pela França e pela Alemanha. Os desafios de transformar a UE numa potência são imensos, pois há questões de representatividade democrática, os países que a constituem tendem a formar blocos e as nações fortes que podiam moderar o directório Paris-Berlim (Itália, Espanha e Polónia) enfrentam crises internas. A América reduz a tutela sobre os aliados para se poder virar para os seus próprios problemas: a obsessão com as armas, o racismo tóxico, a facilidade com que os interesses especiais se apropriam da política, as oligarquias financeiras e o fundamentalismo religioso, as diferenças sociais crescentes e o fim daquilo a que se chamava o sonho americano, ou seja, a fácil ascensão social. Os europeus também têm de passar vários obstáculos: estabilizar a zona monetária, sair da estagnação económica, travar o envelhecimento da população mas, acima de tudo, terão de resolver as tensões em torno das suas identidades nacionais ameaçadas.

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publicado às 19:05

Vulcões adormecidos

por Luís Naves, em 03.12.17

Quem viveu durante a primeira metade do século XX habituou-se a esperar a violência, a desconfiar da longevidade da paz e a temer as ameaças existenciais da sua época. O nosso tempo parece ser diferente, habituámo-nos ao rumor profundo dos vulcões, mas eles não nos preocupam, pois julgamos que estão adormecidos. Em vez da decadência que destrói o passado, somos do esquecimento que idealiza o presente. Vivemos na cultura do efémero, no gosto superficial que rejeita o que pareça antigo. Na cultura, triunfou a frivolidade. As castas políticas desprezam os eleitores e falam em nome do povo, as ideologias foram substituídas pelo consenso pragmático, que ocupa o centro bacteriologicamente puro, em oposição às franjas, onde se instalaram lunáticos, deslumbrados e populistas. Os sensores da economia dão os sinais mais fortes da fúria que se acumula nas profundezas da sociedade: o poder salvou os bancos, mas nunca se preocupou em salvar as indústrias que empregavam os trabalhadores pouco qualificados; os operários quase desapareceram e competem hoje com emigrantes e refugiados por empregos precários e serviços públicos subfinanciados. Os migrantes apareceram numa altura em que se precisava de mão-de-obra conveniente, foram recebidos pelas elites com flores e beijos, mas não têm ainda o direito de trazer as suas famílias. Além do rumor dos povos em marcha, é possível ouvir outros sons dos vulcões adormecidos: os robôs que dão pulos, os tiranos com mísseis, os inquisidores e novos episódios de caça às bruxas, o trovão dos gelos em colapso, as guerras autênticas que não interessam. Este é um mundo onde a solidariedade paga imposto e os milionários estão entre os grandes arautos da moralidade. Este é um mundo onde o que se diz hoje não é válido amanhã. Este é um mundo que perdeu a alma e ainda não encontrou outra, que perdeu as nações e raízes, as línguas e até as sementes, que apaga o que é velho. Este é um mundo aparentemente fragmentado, mas que tende para a convergência e para o conformismo, onde tudo o que interessa é ditado de cima e se torna igual para todos, a cultura de massas, o consumo desenfreado ou o consenso mole na política.

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publicado às 21:58

Os radicais

por Luís Naves, em 27.08.17

Muito do que lemos na Imprensa reflecte o crescente conflito em torno da criação de uma nova identidade nacional desenraizada, repleta de culpa do homem branco, de leituras alternativas da História e de simplificações ideológicas alheias à vivência normal das pessoas comuns. Após a queda do Muro de Berlim, a esquerda entrou em crise, fragmentou-se, e a sua franja mais radical começou a negar a própria herança. Após lutar durante décadas contra as discriminações a grupos maioritários, como trabalhadores ou mulheres, a esquerda abandonou o passado e adoptou novas lutas ligadas a questões de minorias. Os movimentos que saíram desta fragmentação começaram a olhar para a sociedade como uma manta de retalhos de pequenos grupos, tentando federar o maior número possível numa agenda política que procura acomodar os problemas de cada um e de todos ao mesmo tempo. Esta abordagem precisa por outro lado de combater e até de negar tudo aquilo que possa parecer maioritário: contesta-se a religião da maioria, os grandes partidos e empresas, a língua (onde houver mais que uma), todos os costumes enraizados, incluindo o casamento tradicional, a ideia da nação e os respectivos símbolos. Terá isto futuro? É possível, mas para já está a criar forte reacção dos conservadores radicais, que começam a defender cada pedaço de território ameaçado como se fosse o último. Uns querem substituir tudo e criar o homem novo, os outros não admitem mexer uma vírgula, como se a identidade fosse algo imutável. E, no meio disto tudo, está um público perplexo, por vezes divertido, a assistir a gritarias ridículas sobre assuntos que, do seu ponto de vista, são de lana-caprina e do mundo irreal.

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publicado às 19:19

Uns com bilhete e os outros...

por Luís Naves, em 11.07.17

Foi na grande crise que começou a queda lenta em que vivemos. Chamem-lhe essa espécie de fim do mundo, quando começámos a perceber que estávamos sufocados e presos à servidão, enquanto crescia o fosso entre os que tinham direito a bilhete e aqueles que não tinham esse direito, como observou o intelectual húngaro Támas Gaspár Miklós, num texto que escreveu sobre a crise migratória, inspirado naquilo que vira numa gare de comboios paralisada, apinhada de refugiados e de passageiros sem transporte, uns mostrando o bilhete, os outros de mão vazia, mas todos a meio da viagem e aparentemente sem destino. O nosso tempo estabeleceu uma divisão entre os que beneficiam das liberdades e os que não lhes têm acesso; entre os que vivem na abundância crescente e aqueles que se afundam na estagnação; entre os que passam fronteiras e os que ficam à porta; entre os que são escutados e os outros, cuja voz é ignorada, com desprezo ou indiferença. A liberdade, a saúde, a justiça e o conhecimento são mais desiguais do que eram. O mundo radicaliza-se. Os mais fortes triunfaram sobre os fracos e as palavras passaram a ter significados restritos, que impedem as discussões. Cresce a intolerância e as discussões são submetidas a um duplo critério que não permite compromissos.

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publicado às 19:01

Fomos compreendendo a pouco e pouco

por Luís Naves, em 27.06.17

Na grande crise houve vencedores e vencidos, como acontece em todos os grandes acontecimentos. Nos últimos cem anos deram-se quatro grandes transformações e, em três delas, toda a gente percebeu que o mundo tinha mudado de um dia para o outro. Foi assim no final da Primeira Guerra Mundial, depois de novo no final da Segunda Guerra Mundial, ao explodir a primeira bomba atómica, depois quando caiu o Muro de Berlim. Na crise financeira de 2008, a quarta grande transformação consecutiva, ninguém percebeu que o mundo tinha mudado de forma radical; fomos compreendendo isso apenas a pouco e pouco.

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publicado às 18:58

Pureza e razão

por Luís Naves, em 13.06.17

De um lado, estão os que têm sempre razão; do outro, os que não têm razão em coisa alguma. A análise dos conflitos humanos é cada vez mais uma interpretação que divide o mundo entre bons e maus, entre puros e impuros, entre aqueles que estão a favor do desenvolvimento da humanidade e aqueles que defendem apenas o retrocesso. Os meios de comunicação aderiram com entusiasmo a esta visão simplista, talvez por imposição das redes sociais, e vemos estender-se a qualquer assunto, por banal que seja, a tese redutora que avalia toda a política a preto e branco, sem visualizar sombras ou subtilezas. Esta equação de soma zero esquece um facto evidente: se todas as coisas humanas fossem um simples combate entre luz e escuridão, teríamos apenas clarão e trevas, ou seja, duas situações sem forma. Em Portugal, as coisas complicam-se, pois nunca há polémicas, apenas gritaria. Se alguém argumenta com dureza, logo isso é interpretado como agressividade e ataque pessoal. Quando lemos as polémicas antigas, encontramos reacções indignadas a argumentos civilizados, a que se seguem berrarias indescritíveis sobre as qualidades físicas do oponente ou, em desespero, a má leitura de alguma coisa que ele escreveu em 1830, com as devidas alterações, para que pareça pertencer exclusivamente ao campo dos maus, dos impuros e dos reaccionários.

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publicado às 15:25



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