Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]



As mulheres dos jihadistas

por Luís Naves, em 23.05.18

Quando expulsou o movimento Estado Islâmico do seu território, o exército iraquiano, com a assistência das milícias curdas, capturou centenas de familiares dos jihadistas, sobretudo mulheres e crianças, muitas das quais terão sido certamente vítimas da brutalidade dos combatentes radicais. Os tribunais iraquianos estão agora a condenar à morte as mulheres dos jihadistas, que foram desde o início tratadas como criminosas, não como vítimas. Já foram decididas dezenas de condenações à morte por enforcamento, isto no âmbito de uma repressão mais vasta que inclui os militantes sobreviventes, que estarão a ser executados. Claro que o enforcamento destas mulheres é uma barbaridade inaceitável, uma injustiça absurda que só criará mártires e órfãos. Não me ocorre um exemplo de conflito militar contemporâneo que tenha dado origem ao extermínio dos familiares dos derrotados. Estas mulheres devem ser entregues aos países de origem (Turquia, França, Alemanha), com as suas crianças, e tiradas daquele inferno, mas os países de origem estão a protestar apenas suavemente. O Ocidente tem esta obrigação e uma das coisas que mais me custa é o silêncio, a indiferença, a hipocrisia. Onde estão os indignados do costume e as feministas? onde estão os protestos dos intelectuais politicamente correctos e as manifestações contra este ultraje? onde estão os jornalistas, os defensores de direitos humanos, as Nações Unidas, a União Europeia e a comunidade internacional? porquê o silêncio?

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 12:48

Um enigma

por Luís Naves, em 13.01.18

Muitas das inovações sociais dos últimos cem anos têm sido sobretudo americanas e, de repente, toda a gente desatou a discutir as peripécias de uma campanha nascida nos Estados Unidos contra o assédio sexual dos poderosos. A campanha nasceu em Hollywood e está a espalhar-se na política e nas artes, com momentos de MacCarthismo e caça às bruxas, outros que dão que pensar. Entre nós, obviamente, só se discute o mau-carácter dos actores de Hollywood apanhados na rede, porque em Portugal nunca houve assédio sexual dos poderosos e os maus exemplos limitam-se à técnica do piropo na construção civil. O tema é pertinente, mas na ausência de prevaricadores nativos e com base nos americanos, a esquerda puritana quer transformar o debate numa teoria de guerra entre os sexos (já agora, como estamos a destruir a pátria, a religião, a família, a arte e todas as restantes tradições, enfim, vamos também proibir a sedução e o sexo). Esta tentativa reaccionária de criar um arquipélago conventual de carmelitas e monges capuchinhos exclui todas as tentativas de ser razoável, como aconteceu nas críticas que choveram imediatamente a uma carta moderada de cem mulheres francesas, alertando para as consequências do exagero desta campanha e para as nuances puritanas que a alimentam. É sem dúvida um dos grandes enigmas nestes nossos tempos falsos: a esquerda ortodoxa está cada vez mais reaccionária e assumiu as principais lutas do conservadorismo.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 11:29

Mal maior

por Luís Naves, em 30.10.17

A Catalunha é apenas um exemplo de um mal maior que está a tomar conta do mundo. A Europa continua a partir-se em micro conflitos sem motivo aparente, envolvendo o desejo de novas fronteiras, a atracção do abismo, a recusa da solidariedade, o fosso crescente entre ricos e pobres, o abandono dos perdedores à sua sorte, a desertificação humana de regiões inteiras, a redução da voz dos países mais pequenos e a contestação à distribuição da riqueza. Duas regiões do norte de Itália votaram (de forma legal e livre) a favor de mais autonomia: muito em resumo pretendem reduzir o dinheiro que pagam para o Sul, com o argumento de que essa parte de Itália, fortemente dominada pela máfia, é subsidiada há 70 anos sem resultados visíveis (subsidiada não apenas pela Itália do Norte, mas também pela Europa rica). Outro exemplo: entre as numerosas contradições europeias, está sem dúvida a arrogância das elites não eleitas de Bruxelas, para quem os eleitores são uma chatice e um obstáculo à ideia pura do federalismo. Os eurocratas estão a provocar uma reacção de desconfiança das populações, geralmente pouco interessadas nos delírios unificadores da organização supranacional.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 21:45

Enigma

por Luís Naves, em 29.10.17

A docilidade com que os países ricos começam a aceitar a redução das suas liberdades é talvez um dos grandes enigmas contemporâneos. Bastava referir o exemplo da transformação dos aeroportos em locais securitários, mas surgem em cada dia novos exemplos de sectores da sociedade a exigirem limitações às liberdades de expressão e de imprensa, ao comércio e ao turismo, até à difusão de certas ideias, desde que sejam consideradas ofensivas pelos que as tentam suprimir. A intolerância cresce sobretudo em sociedades complexas, é visível na linguagem do politicamente correto e na radicalização populista dos eleitorados.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 21:44

O país imaginário

por Luís Naves, em 26.10.17

A crise catalã parece ser um exemplo do crescente desfasamento contemporâneo entre a vida das elites e a vida dos que não têm voz, sendo que os privilegiados tendem a criar uma visão mítica da existência de todos os outros. Os independentistas catalães fantasiaram um país imaginário, que flutua cada vez mais no vazio, separado das circunstâncias factuais que vão surgindo. Perante o desenrolar dos factos, à medida que se vai impondo a cruel realidade, as pessoas que defendem a independência choram, indignam-se, emocionam-se, não compreendem o esboroar do processo. Em Portugal, está a desenvolver-se devagarinho uma idêntica ilusão fantasmagórica sobre o país real e a sua posição no mundo.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 21:42

Vitória amarga

por Luís Naves, em 24.09.17

As sondagens à boca das urnas apontam para uma surpresa relativa nas eleições legislativas alemãs: o resultado da grande coligação no poder é o pior de sempre; somados, os dois grandes partidos que dominaram durante mais de meio século a vida política da República Federal terão pouco mais de 52% dos votos, menos 15 pontos percentuais do que conseguiram em 2013. A extrema-direita populista entra no parlamento quase a triplicar a votação anterior, quando falhou por um triz a barreira dos 5%. A fragmentação partidária obrigará a chanceler Angela Merkel a uma coligação potencialmente instável, que exigirá longas negociações, a chamada coligação Jamaica, que incluirá cristãos-democratas, liberais e verdes. A confirmarem-se os resultados (e falta o cálculo essencial de número de deputados), a Alemanha terá um governo complicado, com dois partidos minoritários que discordam entre si em numerosos assuntos (julgo que não haverá deputados suficientes para um governo só com CDU e o FDP, mas saberemos mais logo). FDP e Verdes são próximos em muitos temas europeus, mas terão opiniões diferentes na política de imigração, nas questões económicas e na definição da futura União Europeia.
As sondagens falharam, os analistas e os políticos subestimaram o descontentamento popular, a imprensa deixou de entender os verdadeiros sentimentos da opinião pública. A bolha em que vivem as elites começa a ser perigosamente distante da realidade em que vivem os desfavorecidos. Na sondagem à boca das urnas que a BBC está a usar, a CDU terá apenas 32% e o SPD, com 20%, terá sido cilindrado. O voto de protesto (AfD e Linke) soma um em cada quatro, o que parece uma enorme proporção para um país em boa situação económica. Nos últimos meses, houve entre os comentadores uma espécie de euforia de europeísmo desenfreado. Nessa narrativa, estava tudo a correr maravilhosamente, sob a batuta da nova líder do mundo livre; e ps indicadores económicos demonstravam que era finalmente possível avançar com grandes utopias de federalismo europeu. Todos se esqueceram dos eleitores. Afinal, o descontentamento dos perdedores da globalização não desapareceu, há muitas pessoas que recusam as ideias internacionalistas e que olham com desconfiança para o que consideram ser a diluição da sua identidade. Será interessante olhar para a reacção dos mercados, amanhã, se começa ou não a instalar-se algum nervosismo.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 20:00

O independentismo folclórico

por Luís Naves, em 12.09.17

O processo de independência da Catalunha está a ser tratado com pinças pelos meios de comunicação nacionais, talvez pela circunstância do tema ser fracturante dentro da chamada geringonça, a aliança de poder entre esquerda radical e centro-esquerda. Muitos dos nossos comentadores olham com indisfarçada simpatia para o separatismo catalão, que é sobretudo folclórico e sentimental. E, no entanto, se a Catalunha se separasse da Espanha, isso era objectivamente péssimo para os interesses portugueses.
Para os catalães, a independência era uma calamidade: ficavam mais pobres, mais inseguros e provavelmente menos livres, pois muitos cidadãos têm raízes na Andaluzia ou na Galiza, de onde os seus pais emigraram há 40 ou 50 anos, atraídos pelo emprego industrial desta próspera região.
A independência da Catalunha, sobretudo num processo ilegal como aquele a que assistimos, implicava a imediata saída da União Europeia e da zona euro. E podia ser uma saída sem regresso. Os catalães negociariam um período de transição, mas fora do BCE e do mercado único. Passados alguns anos, a Catalunha teria imensas dificuldades em regressar à UE, pois a Espanha e todos os países com minorias separatistas tenderiam a votar contra.
Entre os nossos comentadores da esquerda avoluma-se uma tese extraordinária, de que há nacionalismos bons e nacionalismos maus; há aspirações nacionais que temos de combater e outras que podemos defender com simpatia. Há constituições que devem ser preservadas e outras que podemos rasgar. Há Estados onde os tribunais pesam e as leis se aplicam e outros onde isso não é bem assim.
O mais espantoso, nos nossos dias, não é este desejo popular de reforçar a identidade das nações, mas a tendência suicidária que se manifesta em sectores substanciais das sociedades mais ricas, neste caso entre a burguesia catalã, mas podia citar o exemplo do Brexit. É este o maior enigma: o que leva países prósperos a namorar os abismos?

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 15:40

Novo sismo eleitoral

por Luís Naves, em 09.06.17

Novo sismo eleitoral no Reino Unido: em legislativas antecipadas, num erro de cálculo histórico, o Partido Conservador desbaratou a maioria que tinha no parlamento. Embora fosse o partido mais votado e a primeira-ministra Theresa May possa formar novo governo, é possível que haja uma insurreição interna ou uma situação de alta instabilidade. Na prática, existe um parlamento ‘pendurado’, ou seja, um impasse a exigir coligação. Este resultado confirma o padrão de insatisfação popular nos países desenvolvidos: o eleitorado não quer a política habitual nem os políticos do costume, os que vivem na sua bolha, alheados da realidade. Os conservadores entraram nestas eleições demasiado confiantes, não perceberam o descontentamento popular e fizeram uma péssima campanha. May queria negociar na Europa com a sua autoridade reforçada, mas vai entrar nas negociações do Brexit, dentro de dias, num calamitoso estado de fragilidade. A primeira-ministra subestimou o adversário, Jeremy Corbyn, que ganhou com o regresso ao bipartidarismo tradicional e que parece seguir com habilidade a máxima de Napoleão: ‘nunca interrompas o erro do adversário’.

Estas eleições mostram a crescente importância da gestão de expectativas. Muitos britânicos assustaram-se com a possibilidade (ainda em Maio) de um triunfo absoluto dos conservadores. As sondagens de Abril e Maio apontavam de forma unânime para uma diferença superior a cem deputados em relação aos trabalhistas (afinal, foi de apenas 57). Nos seus cálculos complacentes, os conservadores pensaram que iam garantir 80% dos votos do partido nacionalista UKIP, que praticamente desapareceu; ora, os trabalhistas atraíram uma proporção significativa destes eleitores, talvez mais de metade, garantindo com esse acréscimo de dois ou três pontos percentuais que os conservadores não ganhavam por landslide, ou derrocada do adversário. Ontem, embora fossem perdedores (ficaram em segundo lugar e não formam maioria), os trabalhistas definiram-se logo como os vencedores das eleições. Todos os eleitos repetiam a narrativa de que tinham ganho e os observadores, internos e externos, diziam o mesmo. Como se esperava o colapso do partido, a votação competitiva pareceu uma vitória. Vivemos assim numa fase estranha das democracias, em que os derrotados podem sair vencedores e os que ganham podem ser considerados ilegítimos.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 13:04

Novo atentado em Londres

por Luís Naves, em 04.06.17

Outro atentado bárbaro numa cidade europeia, desta vez em Londres, com pelo menos sete mortos e dezenas de feridos, alguns em estado crítico. Começa a ser uma banalidade e lemos os habituais relatos de horror: os terroristas vestiam coletes com latas a fingir de explosivos e esfaquearam as pessoas que antes tinham atropelado e que agonizavam no passeio; depois, atacaram numa zona popular de bares e restaurantes e mataram inocentes durante oito minutos. Parece que se instalou uma devastadora nova táctica de baixa tecnologia; agora, bastam uma carrinha e algumas facas. Os terroristas tendem a ter a nacionalidade dos países onde matam e pertencem geralmente à segunda geração de imigrantes; foram radicalizados por imãs e activistas que actuam com impunidade, em nome da liberdade religiosa, espalhando uma ideologia que despreza a nossa forma de vida, odeia as nossas liberdades, recusa a nossa democracia e visa impor-nos uma visão niilista que nega os direitos humanos. Em vários locais da Europa, com tolerância oficial, instalaram-se milícias radicais que impõem a charia, proibindo, por exemplo, que os cidadãos comprem e bebam álcool; há bairros em França onde as mulheres vestidas de forma ocidental já não podem sair à rua sem serem molestadas; há zonas onde os judeus são os alvos, mas também os cristãos, até mudarem de bairro ou venderem os seus negócios a muçulmanos. A intolerância islamita foi crescendo sob o olhar benevolente das elites bem-pensantes, nomeadamente dos meios de comunicação, que se recusam a perceber a extensão do problema e cujo contacto com as comunidades em crise é limitado. Os líderes da esquerda apoiam esta visão complacente e, por uma vez, guardam na gaveta as ideias feministas e marxistas: os pobres da antiga classe operária, que ainda vivem nos subúrbios repletos de tensão e ódio, deixaram de contar.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 17:47

Atentado de Manchester (2)

por Luís Naves, em 24.05.17

Como não acredito na explicação da doença mental do terrorista, já que todas as suas acções foram racionais e planeadas ao pormenor, então tem forçosamente de existir uma explicação mais complexa para atentados como o de Manchester. Um terrorista radicalizado a este ponto acha que os seus valores são de outro domínio, por isso está-se nas tintas para a eventual não publicidade ao seu nome em meios de comunicação que despreza, sabendo que ocupará o seu devido lugar num paraíso fora desta Terra. E se os seus valores são de outro mundo, que lhe importa a glória e a fama neste? E nós, o que fazemos perante o choque? Acendemos velas, erguemos uns altares, dizemos umas piedades, lemos uns artigos chorosos sobre algumas das vítimas, com preferência pela história de membros das minorias…

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 08:11



Links

Locais Familiares

Alguns blogues anteriores

Boas Leituras