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A captura das instituições

por Luís Naves, em 02.10.18

O maior problema da democracia não está em reconhecer a vontade popular. Essa questão sempre existiu e os políticos que a ignoram estão por sua conta e risco, condenados à inevitável punição eleitoral. O maior problema das democracias contemporâneas está na captura das instituições por interesses especiais. Todos os conflitos importantes a que assistimos têm a ver com este fenómeno: minorias mobilizadas, com influência nos meios de comunicação, nos partidos, nos mercados ou nas academias, tentam conquistar posições de controlo nas instituições que regulam a sociedade, manipulam nomeações ou travam políticos emergentes, ignorando todas as opiniões contrárias. A política transformou-se numa luta permanente, onde grupos diferentes tentam impor as respectivas agendas a todas as instituições, pequenas e grandes, sejam órgãos políticos ou associações, escolas ou empresas, júris de concursos ou cargos de liderança, espaços de comentário e até nas organizações que nada representam, mas que podem tornar-se úteis para a causa.

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publicado às 11:48

Que se passa na América Latina?

por Luís Naves, em 31.08.18

O que se passa na América Latina? Ainda não ouvi uma boa explicação, mas o cenário é preocupante: colapso na Venezuela (e talvez na Nicarágua), a Argentina a pedir ajuda ao FMI, o Brasil numa crise política alarmante, talvez à beira de uma eleição catastrófica. Se juntarmos a isto os problemas financeiros na Turquia (um dos canários da mina) e a crescente guerra comercial entre potências, está a formar-se um daqueles momentos de alta volatilidade que terminam em rebentamentos de bolhas ou quedas bolsistas. Há pelo mundo dívidas insustentáveis, países que mergulharam em súbitas dificuldades de liquidez, regimes à beira do fim, democracias presas por um fio, mas se ocorrer por contágio uma súbita crise financeira, Portugal não tem muitas hipóteses de escapar à queda das exportações e ao aumento de taxas de juro e serviço da dívida, não dispondo de instrumentos para contrariar uma recessão — não é possível baixar impostos e não é possível aumentar a despesa. Se isto acontecer, veremos que o governo acreditou de tal forma na própria propaganda que não terá boa maneira de explicar à população como é que estamos de novo a olhar o abismo.

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publicado às 12:09

Clima tóxico

por Luís Naves, em 13.07.18

Escrevi um pequeno texto para o Delito, com uma análise sobre os EUA que até me parecia catita, e apareceram logo os comentários ferozes, com gente espantada por ler algo que divergia das opiniões gerais sobre o assunto. Portugal está a ficar com um clima tóxico, onde só são permitidas determinadas visões do mundo. Começam a surgir com frequência os artigos que defendem a existência de uma meritocracia e, para seu desgosto, um eleitorado populista mal informado que, levando a lógica até ao fim, nem deveria ter direito a voto (a República Velha defendia a mesma tese e protegeu o regime do voto de centenas de milhares de eleitores analfabetos, sendo que a ideia ressuscitou logo a seguir ao 25 de Abril, quando muitos comunistas defenderam as assembleias populares). Nestes nossos dias cinzentos, há um cinismo manhoso e provinciano a tomar conta das pessoas que se instalaram nos poleiros intelectuais. Com o desastre à porta, começam a desenhar-se as lamurias que vão servir para tirar o cavalinho da chuva, ilibar os responsáveis e continuar com a vil tristeza que nos afunda. Por tudo isto, começo a ficar sinceramente farto da perda de tempo de escrevinhar umas opiniões avulsas, boas ou más, que extraio sobretudo da minha reflexão, e pouco me importa esta quase desistência, pois há muito que o país desistiu de tanta coisa. Já poucos distinguem uma opinião trivial de outra diferente, um bom romance de um mau, uma interpretação musical culta de outra fora do estilo, e ainda menos se preocupam com isso. O respeito pela tradição, que é um dos pilares da arte, está definitivamente perdido a favor da colagem, da imitação e do gosto das sensações frívolas. A política, aliás, não é mais do que um espelho particularmente cruel destas tendências.

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publicado às 19:50

Tudo ao contrário

por Luís Naves, em 15.06.18

Alguns comentadores não entendem que uma grelha de análise errada torna impossível a compreensão dos acontecimentos. Nos países de leste, a política não pode ser descrita como liberais versus nacionalistas, como acontece actualmente, pois os chamados liberais são na realidade pós-comunistas e os nacionalistas são exactamente os mesmos que na transição eram definidos como liberais, ou seja, aqueles que defendiam um tipo de sociedade com instituições democráticas. Ironicamente, os fariseus da Europa criaram uma narrativa que coloca tudo de pernas para o ar, transformando democratas em autocratas e pós-comunistas em liberais.

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publicado às 11:59

Mudanças políticas

por Luís Naves, em 10.06.18

Está a ocorrer uma alteração política na Europa, com a crescente aproximação entre conservadores e populistas, ou seja, o centro-direita a fracturar-se, resultando igualmente no reforço do centro federalista que já absorveu parte dos social-democratas. A dicotomia direita-esquerda parece esgotar-se. Como dizia o outro, isto agora é a três: temos o bloco conservador-populista, que quer travar as migrações e despertar os sentimentos nacionalistas; o centrismo liberal-federalista, favorável ao multiculturalismo e à globalização; e a esquerda neo-marxista, que lidera as guerras culturais e desconfia profundamente do capitalismo, da globalização e do federalismo europeu. Portugal, para variar, anda fora destas coisas, entretido com a bola e o folclore da auto-estima.

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publicado às 11:56

As mulheres dos jihadistas

por Luís Naves, em 23.05.18

Quando expulsou o movimento Estado Islâmico do seu território, o exército iraquiano, com a assistência das milícias curdas, capturou centenas de familiares dos jihadistas, sobretudo mulheres e crianças, muitas das quais terão sido certamente vítimas da brutalidade dos combatentes radicais. Os tribunais iraquianos estão agora a condenar à morte as mulheres dos jihadistas, que foram desde o início tratadas como criminosas, não como vítimas. Já foram decididas dezenas de condenações à morte por enforcamento, isto no âmbito de uma repressão mais vasta que inclui os militantes sobreviventes, que estarão a ser executados. Claro que o enforcamento destas mulheres é uma barbaridade inaceitável, uma injustiça absurda que só criará mártires e órfãos. Não me ocorre um exemplo de conflito militar contemporâneo que tenha dado origem ao extermínio dos familiares dos derrotados. Estas mulheres devem ser entregues aos países de origem (Turquia, França, Alemanha), com as suas crianças, e tiradas daquele inferno, mas os países de origem estão a protestar apenas suavemente. O Ocidente tem esta obrigação e uma das coisas que mais me custa é o silêncio, a indiferença, a hipocrisia. Onde estão os indignados do costume e as feministas? onde estão os protestos dos intelectuais politicamente correctos e as manifestações contra este ultraje? onde estão os jornalistas, os defensores de direitos humanos, as Nações Unidas, a União Europeia e a comunidade internacional? porquê o silêncio?

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publicado às 12:48

Um enigma

por Luís Naves, em 13.01.18

Muitas das inovações sociais dos últimos cem anos têm sido sobretudo americanas e, de repente, toda a gente desatou a discutir as peripécias de uma campanha nascida nos Estados Unidos contra o assédio sexual dos poderosos. A campanha nasceu em Hollywood e está a espalhar-se na política e nas artes, com momentos de MacCarthismo e caça às bruxas, outros que dão que pensar. Entre nós, obviamente, só se discute o mau-carácter dos actores de Hollywood apanhados na rede, porque em Portugal nunca houve assédio sexual dos poderosos e os maus exemplos limitam-se à técnica do piropo na construção civil. O tema é pertinente, mas na ausência de prevaricadores nativos e com base nos americanos, a esquerda puritana quer transformar o debate numa teoria de guerra entre os sexos (já agora, como estamos a destruir a pátria, a religião, a família, a arte e todas as restantes tradições, enfim, vamos também proibir a sedução e o sexo). Esta tentativa reaccionária de criar um arquipélago conventual de carmelitas e monges capuchinhos exclui todas as tentativas de ser razoável, como aconteceu nas críticas que choveram imediatamente a uma carta moderada de cem mulheres francesas, alertando para as consequências do exagero desta campanha e para as nuances puritanas que a alimentam. É sem dúvida um dos grandes enigmas nestes nossos tempos falsos: a esquerda ortodoxa está cada vez mais reaccionária e assumiu as principais lutas do conservadorismo.

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publicado às 11:29

Mal maior

por Luís Naves, em 30.10.17

A Catalunha é apenas um exemplo de um mal maior que está a tomar conta do mundo. A Europa continua a partir-se em micro conflitos sem motivo aparente, envolvendo o desejo de novas fronteiras, a atracção do abismo, a recusa da solidariedade, o fosso crescente entre ricos e pobres, o abandono dos perdedores à sua sorte, a desertificação humana de regiões inteiras, a redução da voz dos países mais pequenos e a contestação à distribuição da riqueza. Duas regiões do norte de Itália votaram (de forma legal e livre) a favor de mais autonomia: muito em resumo pretendem reduzir o dinheiro que pagam para o Sul, com o argumento de que essa parte de Itália, fortemente dominada pela máfia, é subsidiada há 70 anos sem resultados visíveis (subsidiada não apenas pela Itália do Norte, mas também pela Europa rica). Outro exemplo: entre as numerosas contradições europeias, está sem dúvida a arrogância das elites não eleitas de Bruxelas, para quem os eleitores são uma chatice e um obstáculo à ideia pura do federalismo. Os eurocratas estão a provocar uma reacção de desconfiança das populações, geralmente pouco interessadas nos delírios unificadores da organização supranacional.

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publicado às 21:45

Enigma

por Luís Naves, em 29.10.17

A docilidade com que os países ricos começam a aceitar a redução das suas liberdades é talvez um dos grandes enigmas contemporâneos. Bastava referir o exemplo da transformação dos aeroportos em locais securitários, mas surgem em cada dia novos exemplos de sectores da sociedade a exigirem limitações às liberdades de expressão e de imprensa, ao comércio e ao turismo, até à difusão de certas ideias, desde que sejam consideradas ofensivas pelos que as tentam suprimir. A intolerância cresce sobretudo em sociedades complexas, é visível na linguagem do politicamente correto e na radicalização populista dos eleitorados.

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publicado às 21:44

O país imaginário

por Luís Naves, em 26.10.17

A crise catalã parece ser um exemplo do crescente desfasamento contemporâneo entre a vida das elites e a vida dos que não têm voz, sendo que os privilegiados tendem a criar uma visão mítica da existência de todos os outros. Os independentistas catalães fantasiaram um país imaginário, que flutua cada vez mais no vazio, separado das circunstâncias factuais que vão surgindo. Perante o desenrolar dos factos, à medida que se vai impondo a cruel realidade, as pessoas que defendem a independência choram, indignam-se, emocionam-se, não compreendem o esboroar do processo. Em Portugal, está a desenvolver-se devagarinho uma idêntica ilusão fantasmagórica sobre o país real e a sua posição no mundo.

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publicado às 21:42



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