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Overbooking

por Luís Naves, em 03.01.18

Cheiro horrível à entrada, da fossa, segundo explicou a responsável. Era um daqueles depósitos de velhos, com mensalidades caríssimas, num prédio adaptado, acanhado e labiríntico, com apenas um elevador manhoso, tão antigo como os pobres velhos que enchiam a triste sala do rés-do-chão e que ali tinham sido deixados, à espera do inevitável, sorrindo avidamente a cada novo recém-chegado. Quantos idosos têm dinheiro para pagar renda igual a um salário alto, recebendo em troca um serviço tão miserável? O cheiro da fossa entupida não era de admirar, pois havia demasiados velhos na instalação, uns vinte na sala de convívio, mais os que estavam na sala dos senis, fora os que se calhar dormiam borrados nas camaratas. Overbooking e pobreza para ricos, e não há lugares em lado nenhum, ficam para ali amontoados, talvez amaldiçoando o excelente indicador nacional da longevidade.

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publicado às 19:19

Mitologia operária

por Luís Naves, em 26.12.17

A mitologia operária dos nossos sindicatos, forjada nas catacumbas do corporativismo nacional, enfrenta o vendaval das mudanças contemporâneas de forma curiosamente semelhante à que caracterizou outros tempos da nossa história, ou seja, inventando mitos quase ingénuos. No ensaio Labirinto da Saudade, Eduardo Lourenço escreveu sobre esta nossa mentalidade de Disneylândia, a propósito do Salazarismo, cuja ideia da «lusitanidade exemplar» serviu de base para a ficção oficial de «um país sem problemas, oásis de paz, exemplo das nações, arquétipo da solução ideal que conciliava o capital e o trabalho, a ordem e a autoridade com um desenvolvimento harmonioso da sociedade». A governar habilmente no curto prazo, o actual governo usa as mesmas referências nacionalistas e populistas, abusando igualmente daquilo que Lourenço definiu como a «relação irrealista que mantemos connosco mesmos». Num frenesim propagandístico, dizia recentemente o PM que «tivemos um ano muito saboroso», esquecendo-se por momentos dos incêndios mortais que incineraram vários concelhos.

 

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publicado às 19:16

Antigo regime

por Luís Naves, em 16.11.17

As nossas elites não querem mudanças, não querem que se mexa no sistema, e não se trata de um instinto de preservação meramente nacional, está a acontecer um pouco por todo o lado, como se víssemos o antigo regime a defender-se da revolução que não tarda e que vai levedando em murmúrios, entre uma populaça descontente que ameaça acordar num dia mau e correr com eles todos.

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publicado às 21:54

Da vida

por Luís Naves, em 31.10.17

A vida é um fogo-fátuo de pequenos equívocos, de sonhos acordados e outras cegueiras que nos encantam e desviam das margens do caminho. No final, triunfo e fracasso são de tal maneira semelhantes, que mal os distinguimos um do outro, e se temos o pressentimento do abismo que está ali um pouco mais à nossa frente, então assalta-nos o medo insuportável da queda. O que não fizemos é também o que nunca faremos. O nosso futuro torna-se mais curto, mas temos cada vez mais receio dele. Se as paredes se fecham à nossa volta, podemos parecer maiores no espaço que nos resta, mas assim é a ilusão do prisioneiro na cela solitária, a imaginar-se progressivamente mais gigantesco, mas incapaz de se mover, a ocupar em cada momento uma fatia maior do mundo disponível.

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publicado às 21:49

Deixem-nos votar

por Luís Naves, em 02.10.17

Na Catalunha, ontem, houve uma espécie de pequena revolução, com as emoções independentistas a tomarem conta da rua. O referendo não teve boletins, listas, policiamento ou debate: foi uma chapelada venezuelana com contagem controlada pelos separatistas, mas os incidentes policiais foram transformados pelos demagogos em protestos legítimos e queixas antigas. Em certa medida, os separatistas já venceram. A democracia espanhola tem má imprensa e é oficial, existe o bom e o mau nacionalismo; o catalão é do bom, o espanhol é mau. Em resumo, um grupo de populistas mobilizado e manipulando raivas difusas pode vencer facilmente uma democracia madura que tente aplicar a lei. É tudo uma questão de imagem. O modelo vai propagar-se pela Europa. A teoria do ‘deixem-nos votar’ permitirá acordar todos os ressentimentos adormecidos, os rancores velhos e as feridas mal cicatrizadas dos tratados punitivos do final da Grande Guerra. A doutrina ‘deixem-nos votar’ convoca o baile dos fantasmas.

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publicado às 10:45

A dúvida faz sentido?

por Luís Naves, em 27.09.17

A vingança das nações é uma reacção quixotesca a mudanças mais profundas a que assistimos com espanto e receio. Em todo o mundo avançado decorrem discussões sobre a identidade da nação, mas poucos se interrogam sobre se estas polémicas fazem sentido: ser hoje nacionalista é embrulhar-se numa bandeira ou ajoelhar em protesto quando toca o hino? ter uma nostalgia gastronómica? falar certa língua ou emocionar-se com uma vitória desportiva? Serei eu, então, bom português? Enfim, detesto cozido à portuguesa, acho a bandeira feia e há milhões de pessoas que falam a minha língua e dizem pertencer a outras nações. A Revolução Francesa abriu caminho ao florescimento de patriotas que, em certos casos, deram origem a impérios e a Estados totalitários, todos mantendo a ideia central de que um determinado povo, nação ou classe controlava o seu destino. A política a que assistimos já não tem nada a ver com esse passado, somos quase todos burgueses, veneramos o capitalismo, aceitamos sem incómodo o poder do Estado, mas sabemos que isto anda tudo ligado e interdependente. Pátria, povo e comunidade são palavras que enchem a boca dos políticos, mas tendo perdido o velho significado que tinham. O que é hoje ser patriota? Pagar impostos? ter uma visão mítica da história? citar clássicos da literatura e achar parvamente que os nossos autores são os melhores?

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publicado às 19:48

Mudança de modelo

por Luís Naves, em 16.09.17

A maior consequência da saída do Reino Unido da União Europeia não será um colapso do comércio ou uma recessão. Londres estava fora da moeda única e, por isso, já estava fora da união, pois a única maneira de manter a prazo a estabilidade da moeda comum europeia será aprofundar as instituições políticas que a regulam (quem paga as contas tem de ter uma maneira de controlar as decisões). O orçamento comunitário vai crescer a prazo, pelo que haverá impostos europeus; existirá um poder transnacional com capacidade para forçar um país a fazer reformas estruturais impopulares; um acordo entre franceses e alemães será imparável; um país que não cumpra as regras terá de ser afastado do euro e lançado para o patamar de comércio livre dominado por Londres (a EFTA reanimada), embora neste ponto exista um problema, pois se a saída for demasiado fácil não fica ninguém na moeda comum. Enfim, acabou a fase de bom senso, que visava criar uma aliança de nações e um mercado único, e começa a erguer-se uma federação burocrática, que pela sua natureza terá de reprimir todos os nacionalismos, menos o francês e o alemão.

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publicado às 20:18

A frivolidade

por Luís Naves, em 08.09.17

A frivolidade está a matar o jornalismo e as artes. Quando um tema é demasiado complexo, os animadores sentem-se na obrigação de o desmontar, apresentando somente os seus aspectos comezinhos e giros, que não fazem pensar nem incomodam. As notícias, essas, são reduzidas às vacuidades, ordinarices, exibições de mau gosto ou ainda ao espectáculo da demagogia e das ideias truncadas. As pessoas adoram frases vazias que pareçam grandiosas, querem líderes que lhes contem histórias da carochinha, o que reduz a política a um enredo em papel couché com imagens glamorosas. A frivolidade mata a arte porque ninguém quer o pensamento simples sobre o real; as massas preferem claramente tudo aquilo que, prescindindo de um olhar sobre a alma dos seres humanos, não vá além da flor da pele e da aparência de inovação estética; quanto mais rebuscada, melhor.

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publicado às 11:21

Camponês

por Luís Naves, em 31.08.17

Enfim, isto não tem saída, só me resta continuar, fazer das tripas-coração e escrever, sem olhar para trás. Escrever como trabalhador rural, não como um burguês. Sou da picareta, abro valas junto à estrada, trabalho à sachola, sem tempo para olhar a paisagem, sem enfeites nem ornamentação; não me sinto mais jardineiro, sou camponês sem terra e, para extrair o pão, tem de ser à força, com suor e o mínimo de ilusões. A partir pedra.

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publicado às 11:15

Escrever para os amigos

por Luís Naves, em 30.08.17

Uma parte substancial da literatura será porventura resultado das cautelas, pois os autores preocupam-se, e muito, com o que dizem deles; por isso escrevem para os membros das tertúlias, para os amigos, para o seu círculo de críticos particulares, não faças isto, não faças aquilo, faz antes isto e devias era tentar aquilo, o que se calhar explica a longevidade daqueles raros escritores que não tinham círculo a quem prestar contas, os que tinham poucos amigos, sobretudo daquele género cuja amizade tem este preço elevado de um certo conformismo.

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publicado às 11:12



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