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Não somos diferentes

por Luís Naves, em 21.03.18

Os homens primitivos precisavam de saber o que estava para lá da montanha mais alta ou do rio caudaloso e, para isso, ouviam histórias daqueles que tinham explorado essas fronteiras. Não eram relatos factuais, mas exageros distorcidos pela imaginação, e só assim funcionavam. Não somos tão diferentes dos nossos antepassados, só mais organizados em rede, por isso, também gostamos de coboiadas, de histórias de aventuras e crimes, por isso necessitamos de ler, ou seremos apenas formiguinhas embaladas em caixas. E, no entanto, a ambição provocada pelos exercícios da imaginação vai desaparecendo da arte contemporânea, sobretudo devido à domesticação imposta pelo dinheiro. Estão a matar aquele um por cento de literatura que a humanidade ainda possuía. Ou talvez não, de vez em quando ouvimos pequenos testemunhos daqueles tios que ainda vão escrevendo: esforçam-se por explicar que a arte é uma ilusão em movimento e tentam extrair das realidades toda a essência que não se consegue dizer por palavras, tudo o que na experiência humana possa ser mais obscuro, indomável e desmedido.

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publicado às 14:08

Excesso de estilo

por Luís Naves, em 10.01.18

A literatura pode ser tudo aquilo que resta depois de ser retirado o que não adianta. Convém não confundir pintura com decoração, música com melodia de acalmar nervos. O fato serve para vestir alguém e, quando não leva em conta as dimensões do corpo, torna ridículo quem o veste. O excesso de estilo é como o fato demasiado longo que não obedece à personalidade de quem escreve. Certo jogador famoso nunca fazia um passe, corria com a bola nos pés como se ela fosse sua e ornamentava cada movimento com dribles adicionais. Nesse tempo, o excesso de estilo era muito apreciado e choviam os aplausos enquanto ele fintava um, dois, três adversários, até finalmente perder a bola. A imprensa dizia que ele era capaz de sair de uma cabina telefónica a jogar, mas funcionava ao contrário, era capaz de se enfiar inutilmente numa cabina telefónica, rodeado de adversários, e ficava lá a dar toques infinitos, até perder a bola e cair no relvado com grandes gestos de protesto a quem ninguém ligava. Um dia, as pessoas fartaram-se, achavam aquilo monótono, e dizia-se que o grande campeão nunca tivera verdadeira noção da baliza. Depois, foi esquecido, mas isso acontece a todos. Se percebemos isto no futebol, devíamos perceber na arte, mas depois lemos Proust e não é nada disto.

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publicado às 19:29

Salambô

por Luís Naves, em 14.11.17

Pouco importa se a Salambô de Gustave Flaubert corresponde à verdade histórica (é improvável, já que tem na base fontes romanas). Por muita pesquisa ou leitura que o autor tenha feito, vê-se no livro um delírio de imaginação que nos faz visualizar o cenário do drama e toda a violência dos episódios narrados. O cinema já nos habituou a cenas macabras de violência extrema, mas os leitores da época devem ter ficado chocados com o grotesco radical de algumas cenas. Flaubert estava a pesquisar os limites da sua arte, tendo criado uma prosa exótica, com a grandiosidade dos clássicos e o mistério das civilizações extintas. Cartago é perversa e o autor certamente deve ter pensado no seu próprio tempo, hipócrita e decadente, mas ronda ali também a premonição da guerra total que em breve a Europa usaria para o seu suicídio (a derrota do exército mercenário no desfiladeiro antecipa em 40 anos as descrições do pesadelo das trincheiras).

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publicado às 21:53

Memórias, de Brandão

por Luís Naves, em 05.07.17

Entre leituras caóticas de Rodrigues Miguéis, Aquilino Ribeiro e Mário Vargas Llosa, alguns excertos das Memórias, de Raul Brandão, livro espantoso que a Quetzal se atreveu a publicar num único volume. Conhecia a primeira parte, mas não os dois segmentos seguintes. Há por ali reminiscências pessoais, sem autobiografia, pequenas histórias retiradas de conversas, um bocadinho de má-língua, recortes da imprensa, textos de poesia pura, crónica, observações políticas, comentário, um pouco de tudo, enfim, e a leitura é uma delícia contínua. Não sei se já li o suficiente para compreender o livro, mas ocorreu-me que, se na época de Raul Brandão houvesse blogues, o escritor teria utilizado o meio. Outra ideia ainda não está sedimentada, mas muitos textos revelam excertos de conversas e, em muitos casos, revela-se ali a escassa lucidez das elites portuguesas (os rumores que os cavalheiros iam transmitindo fazem lembrar as conversas do moderno facebook). Não sei se não estaremos a viver um período parecido com alguns dos piores momentos da Primeira República, pois também agora são os exaltados que se fazem ouvir. É também claro que não se encontram reflexões sobre grandes acontecimentos externos; isso, não sei explicar, mas o conhecimento do mundo talvez seja uma mania contemporânea; damos grande atenção à espuma dos eventos estrangeiros, isso vê-se, por exemplo, na obsessão com os fait divers de Trump, geralmente truncados e balofos. No fundo, continuamos provincianos, como no primeiro terço do século passado. Mas isto já foi uma digressão a mais: leiam as Memórias de Raul Brandão, um diário onde se mistura a crónica; na literatura portuguesa não há muitos exemplos do género, pelo menos com esta qualidade.

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publicado às 19:06

Camilo e a mesa

por Luís Naves, em 26.05.17

Dos quase 200 títulos de Camilo não se extraem muitos elementos sobre as funções básicas da natureza humana. É difícil, por exemplo, perceber como é que as pessoas se lavavam ou o valor relativo de um objecto, em comparação ao salário de um camponês. Esse tipo de informação pode extrair-se da obra de Balzac, mas no caso de Camilo é difícil, pois sabemos a renda das quintas sem sabermos coisas menores, por exemplo o custo de uma galinha ou o preço de um fato.

Há referências a gastronomia, mas têm geralmente uma função narrativa. Estou a lembrar-me de uns pastéis em A Brasileira de Prazins ou das opíparas refeições do falso D. Miguel no mesmo romance: aquilo serve como comédia. Há referências a glutões e a banquetes, um piquenique em Coisas Espantosas, ocasionais autênticos petiscos nas miscelâneas, mas na maioria dos livros de Camilo não encontramos qualquer referência a refeições; quando estas existem, as cozinheiras são trabalhadoras do povo mais interessadas em sexo (Anátema).

O provinciano Camilo desconfiava das novidades da culinária francesa, veja-se esta passagem de O Sangue: “Quem come francêsmente cria alma; corpo é que não. Aquele magro molho em que bóiam cascas farináceas não entulha os ductos da intelectualidade. A víscera vital por excelência não escoiceia o vizinho de cima, como sucede nos casos em que o esófago arfa sacudido pelo estômago repleto de fibrina. O coração agita-se docemente quando o novo quilo se está elaborando”. Enfim, o escritor não acreditava nas subtilezas dos sabores, mas apenas no coice intelectual da proteína, nas virtudes substantivas do colesterol e, acima de tudo, na luxúria da linguagem e do estilo.

Em O Santo da Montanha, há duas cenas à mesa, mas a primeira serve para o encontro entre as personagens, a segunda para a tragédia, com uma descrição alimentar pouco abonatória. Neste romance, a comida que surge na primeira refeição parece antecipar a desgraça futura das personagens, quando os leitores ainda não sabem que se trata de uma história de ciúmes assassinos: “Abancados à tosca mesa, cuja toalha tresandava ao fartum do azeite e bacalhau, apareceu a travessa fumegante com duas galinhas, sobre as quais se levantava uma pirâmide de três salpicões, assentes num grosso lardo de toucinho”. A descrição tem um elemento substancial, doentio, e uma intenção repugnante (não quero exagerar, mas talvez isto seja uma alusão inconsciente ao horror do sexo), como se houvesse aqui um aviso do escritor para as personagens se afastarem umas das outras, pois nesta altura ainda vão a tempo de o fazer.

Podia referir outros exemplos onde a comida tem função narrativa, caracteriza a classe social das personagens, introduz um momento de humor ou é mera decoração de uma cena burguesa. Camilo está longe de se interessar por gastronomia ou culinária. O que explica a aparente abundância de referências a comida é sobretudo a dimensão invulgar da obra, sobretudo dedicada à violência, ao amor, à maldade, hipocrisia, enfim, às paixões e ao destino.

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publicado às 15:40

Antigamente

por Luís Naves, em 22.04.17

Antigamente, era fácil para um romancista colocar duas personagens a conversar uma com a outra. Os estranhos encontravam-se em viagens longas, por exemplo, de comboio, ou melhor, de navio, forçados ao convívio inevitável numa paisagem calma (o convés, os camarotes ou a estalagem onde se pernoitava), tornando-se credível que alguém ali contasse uma história ou desvendasse a sua intimidade a outro que não voltaria a ver. Na vida contemporânea, não se imagina que dois estranhos conversem numa simples viagem de avião, onde estamos a ser constantemente interrompidos pelos anúncios dos tripulantes, muito menos numa viagem de comboio (essas ficaram tão curtas) ou num aeroporto, com a confusão impessoal destes lugares e a desconfiança obrigatória. Sim, passamos o tempo todo naquelas barreiras de segurança, num stress horrível; seria estranho e suspeito que dois desconhecidos conversassem longamente, o suficiente para se contar uma história: desculpe, tenho de atender este telefonema, o meu voo já está a ser anunciado, não tenho tempo a perder, o portão é longe, adeuzinho, tive prazer em conhecê-lo, sei que jamais o verei na minha vida e podia contar-lhe tudo o que preciso de desabafar, mas nem sequer fixei o nome do país de onde vem, ainda bem que conversámos estes dez minutinhos, a ponto de já não me lembrar de alguma coisa que tenha dito, afinal, não se diz muito nos primeiros dez minutos de uma conversa, não é assim? Como colocar dois desconhecidos a contar histórias um ao outro? Dois bêbados num bar de uma cidade exótica? Duas pessoas à espera do metropolitano, na plataforma cheia de outros passageiros exasperados com as dificuldades na circulação? Dois estranhos que acabaram de assistir à mesma extraordinária partida de xadrez? Uma mulher que tenta ganhar tempo, encantando um serial killer com histórias fabulosas?

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publicado às 15:53

Liberdade

por Luís Naves, em 20.04.17

Na novela Um Cavalo em Fuga, do escritor alemão Martin Walser, encontrei esta extraordinária frase: “Que grotesca é a pequenez do presente, confrontada com o passado”. Walser é um escritor famoso na Alemanha e relativamente desconhecido em Portugal (escapa-nos tanta coisa). Deste autor, foi traduzido este Cavalo em Fuga, livro sobre o conformismo e a aceitação da banalidade, a tal “pequenez do presente” que vemos instalada na nova medianocracia ou tirania da classe média, caracterizada pela passividade e a condescendência. Walser baseia-se na ideia de que temos medo da contestação e da diferença, do desvio e da pequena liberdade quotidiana; temos inveja do espectáculo da felicidade nos outros e simulamos o nosso próprio contentamento, mas com raiva e ódio. Junto a anotação de outra leitura sobre a liberdade, Nós, de Ievgueni Zamiatine, escritor soviético que deixou de ser publicado na URSS em 1929, e que conseguiu emigrar para o Ocidente em 1932, com ajuda de Maxim Gorki. Este livro foi um êxito em Inglaterra em 1924 e tornou-se a semente literária de outras distopias famosas, como 1984, de George Orwell. Muito imaginativo, Nós era uma devastadora crítica à utopia comunista, nomeadamente à noção de fazer tábua-rasa da decadente cultura burguesa: na sociedade futura imaginada por Zamiatine, o maior monumento sobrevivente da antiga literatura era O Horário de Todos os Caminhos de Ferro.

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publicado às 12:28

O mérito é o movimento

por Luís Naves, em 08.01.17

Nos Cadernos de Albert Camus há uma frase sobre literatura cuja ideia (ou o que interpreto da ideia) não me sai da cabeça: “O escritor só é comprometido quando quer. O seu mérito é o movimento”. A frase surge numa entrada destes cadernos que julgo ser uma reflexão sobre a intervenção política dos escritores. Será isso um dever ou, pelo contrário, um equívoco? Camus não nos dá uma resposta clara, nem sequer algumas pistas. A explicação estava certamente na cabeça dele.

Os Cadernos reúnem reflexões não destinadas a publicação, com pequenas anotações sobre o trabalho do romancista, sobre os ensaios filosóficos, incluindo entradas com observações da realidade que poderiam ser mais tarde utilizadas em artigos ou obras de ficção. Não é um diário, mas a pequena oficina do autor, para registo das suas ideias. “O escritor só é comprometido quando quer”. Parece evidente, isto vem de uma frase anterior: “Gosto mais dos homens que tomam partido do que das literaturas que tomam partido”. Enfim, parece óbvio, as escolhas políticas do escritor partem da sua consciência e são matéria exclusiva de escolhas individuais.

A segunda frase é o bom enigma: “o seu mérito é o movimento”. Será que significa ‘o que o escritor faz melhor é criar movimento’? Sendo essa a interpretação correcta, julgo que é uma óptima definição de literatura, porque se o texto não se move na imaginação do leitor, estará inanimado. Ou regressando a uma frase mais antiga dos Cadernos: “Os maus escritores: aqueles que escrevem de acordo com um contexto interior que o leitor desconhece”.

O que será então a má escrita? A que não consegue produzir movimento na mente do leitor.

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publicado às 15:51

Algumas reflexões

por Luís Naves, em 06.01.17

Não há escritas inocentes. É um fracasso não conseguir abordar temas tabu. Nenhum escritor está fora do seu tempo, excepto quando imita outro. É uma ilusão julgar que o passado tem mais acontecimentos do que o presente.

Estas são algumas ideias de George Orwell, que fui reunindo, de forma avulsa e sem aspas, da leitura dos seus ensaios. Usei palavras minhas, mas as ideias são dele. Dito de outra forma: toda a escrita é política; o verdadeiro fracasso do escritor é não ter a coragem para falar do que lhe parece ser essencial; nenhuma prosa sincera está fora do seu tempo; conhecemos melhor o presente e devemos escrever sobre aquilo que conhecemos.

Adiciono a estas reflexões uma curta definição de Giacomo Casanova, esse grande escritor europeu, a justificar a escrita das suas memórias: “Digna ou indigna, a minha vida é a minha matéria; a minha matéria é a minha vida”. E, já agora, a primeira anotação de Albert Camus para O Estrangeiro, incluída nos Cadernos. O mecanismo inicial do romance, a faísca, não é mais do que esta frase curta: “Até que ponto foi estranho à sua vida”.

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publicado às 15:47

Estranha Forma de Vida, de Enrique Vila-Matas

por Luís Naves, em 27.08.16

O narrador desta novela, um escritor a quem chamam Cyrano por ter o nariz comprido, está a escrever um tríptico realista sobre os deserdados da vida e vai observando os vizinhos da sua rua de Barcelona, enquanto imagina os detalhes de uma conferência sobre a ‘estrutura mítica do herói’, cujo tema, por razões amorosas, pondera alterar para ‘a condição do espião inerente à do escritor’. Em estilo fragmentado e pós-moderno, Vila-Matas constrói um fio de pequenas histórias cheias de imaginação, com personagens divertidas ou inquietantes. O narrador não parece levar demasiado a sério as suas divagações. Há sempre referências a outros livros ou a filmes: Graham Greene surge numa passagem que mais parece retirada de um sonho; em outro caso, a personagem é Salvador Dali, naquilo que parece ser uma história verídica ouvida pelo autor e ‘aproveitada’ naquele contexto; há ainda um episódio que lembra um filme de Alfred Hitchcock e outro talvez inspirado num conto de Nabokov, sobre um barbeiro empunhando a navalha, que passa pela garganta de alguém à sua mercê; há ainda a ideia bem conseguida de uma interferência telefónica que dá origem a certa conversa absurda.

Os malabarismos pós-modernos podem parecer por vezes artificiais, mas dão um tom irónico ao texto e facilitam o fluxo narrativo. O autor é um mestre do disfarce, escondendo ideias elaboradas num quotidiano de aspecto banal: “Uma vez que Deus não existe, uma vez que não acreditamos que alguém nos observa, a nossa vida carece de finalidade”, admite o narrador, numa reflexão bem mais profunda do que parece. No fundo, o escritor observa, como faz o astrónomo, como faz o espião.

Quem assim vigia tem de ser discreto, invisível, Vila-Matas consegue criar um microcosmos de personagens variadas, sobretudo trágicas, que Cyrano decide abandonar num momento de chuva, a favor das personagens da imaginação: “Senti-me absolutamente infeliz, um cobarde, um moderno, um homem sem guarda-chuva, o triste herói do nosso tempo”. O título poético adoptado a Portugal sugere que este universo novelesco e vagamente humorístico obedece a uma espécie de fado, com as personagens presas ao destino, condenadas a interpretar-se nos seus papéis fixos, permitindo-se apenas devaneios, pequenas rebeliões onde, apesar de tudo, ficam reduzidas à anónima espionagem do real. Por tudo isto, é pena que as referências a Portugal nesta novela sejam decepcionantes e folclóricas, servindo apenas para justificar o título, Estranha Forma de Vida, que o autor encontrou num disco de Amália Rodrigues.

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publicado às 09:54



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