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Sobre os heróis de cada tempo

por Luís Naves, em 26.02.18

A cultura popular dominante tende a reflectir a forma como as pessoas se interpretam a si próprias e a maneira como encaram o mundo em que vivem. Se olharmos atentamente para a ideologia em pano de fundo nas histórias dos filmes relevantes de cada época, podemos encontrar, no período após a II Guerra Mundial, três grandes ciclos narrativos. Na primeira fase, que corresponde à reconstrução que ficou conhecida nos EUA por ‘Grande Sociedade’, as personagens positivas são geralmente indivíduos de força, construtores e pioneiros, que resistem à tirania e ao cinismo da mediocridade ou da ganância. A coragem, a resistência e a autoridade moral são os valores desta época de poucas ambiguidades, caracterizada pelo progresso, a confiança e o triunfo da ordem. No final dos anos 60 e início dos anos 70, ocorreu uma transformação social e os heróis deixaram de ser pessoas carregadas de certezas, passando a favorecer a ideia do rebelde que procura uma causa capaz de preencher o seu vazio. As ideias dominantes da cultura popular passaram a ser liberdade, solidariedade e contestação, e foi assim até à crise de 2008, que talvez tenha lançado um novo ciclo. Agora, a rebeldia e a liberdade não são propriamente ideias valorizadas, pelo contrário, parece que introduzem uma espécie de opressão do pensamento. Os heróis deste ciclo estão sobretudo desiludidos e divididos, terão problemas de identidade e serão forçados a escolher soluções menos individualistas: o seu eventual inconformismo será menos compreensível para o público. Esta nossa fragmentação implica que cada dose de realidade esteja amplamente contaminada por fantasias (não quer dizer que isso não tivesse acontecido no passado, o que significa é que hoje já não podemos dizer que uma realidade aceite como tal é mais autêntica do que outra qualquer). Estaremos talvez ainda à procura dos heróis do nosso tempo. O que os fará dar o peito às balas? Antes, foi a necessidade de vencer o totalitarismo, depois foi a solidariedade com os oprimidos. O que virá agora?

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publicado às 13:57




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