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Sobre a táctica do salame

por Luís Naves, em 02.03.14

Não era suposto os impérios contemporâneos terem um comportamento típico do século XIX. Habituámo-nos a aceitar operações de polícia aplicadas em situações humanitárias de emergência ou no derrube de regimes particularmente nocivos para os seus próprios cidadãos. Perdemos o hábito de intervenções de carácter imperial que nem sequer disfarçam o uso puro e simples da força. A crise na Crimeia corresponde a um destes raros exemplos anacrónicos de exercício do império à moda antiga.
Por isso discordo desta análise de Ricardo Lima, em Blasfémias, de estarmos perante um exemplo da táctica do salame. Uma precisão: a analogia é da autoria do ditador estalinista húngaro Mátyás Rákosi, que explicou o que deviam fazer os comunistas após terem sofrido uma derrota eleitoral pesada, no pós guerra; pegando num alimento muito popular no seu país, Rákosi disse que os adversários (os partidos burgueses) deviam ser cortados em fatias finas de salame, até não restar nada deles. Foi o que aconteceu, entre 1946 e 1949, ao partido social-democrata e ao partido dos pequenos proprietários. Ou seja, a táctica é aplicada em situações de tomada de poder: trata-se de dividir o eleitorado, de reduzir forças democráticas sem que isso seja evidente, atacando dirigentes e sectores sociais; quando as fatias são demasiado grossas, a táctica do salame perde eficácia e sabor. Ela precisa de subtileza e visa a supremacia do mais fraco.


A máxima divide et impera tem muitas formas, incluindo a descrita na analogia de Rákosi, mas a ocupação militar da Crimeia não obedece a essa lógica e, pelo contrário, é tão despida de elegância que só aumentará a determinação ucraniana de decidir o seu destino. Vladimir Putin terá razões substantivas para arriscar neste caso, sobretudo devido às ligações sentimentais da Rússia à Crimeia, mas a intervenção não pode passar um certo limite, por exemplo, não pode estender-se à parte leste da Ucrânia, pois os custos de uma segunda Guerra Fria com o Ocidente seriam catastróficos para Moscovo, tendo em conta a fragilidade do império russo.
Do ponto de vista europeu, há implicações graves na circunstância de uma potência conseguir impunemente arrancar pela força um pedaço de território a um país rebelde à sua vontade. Se não houver uma resposta firme dos ocidentais, os últimos vinte anos de reconstituição política do continente ficam comprometidos. É natural que na sequência desta crise a União Europeia sinta alguma ansiedade em relação à sua dependência energética da Rússia e também é natural que haja reforço da cooperação militar na UE. No imediato, o conflito na Crimeia coloca sobretudo duas outra questões: se um povo tem ou não direito de decidir o seu destino e o que é ou não tolerável na acção dos impérios do século XXI.

publicado às 11:19


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