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Sem sombra de dúvida

por Luís Naves, em 11.10.14

Num clássico de Fritz Lang, Beyond a Reasonable Doubt, de 1956, seguimos a história de um homem que, para demolir a ideia de pena de morte, se incrimina por homicídio. O cinema negro baseia-se nas surpresas de enredo e acreditamos que o autor de sucesso (o excelente Dana Andrews) é acusado por um crime que não cometeu, vítima da própria maquinação, feita em conluio com outro idealista. O plano começa a correr mal, pois a testemunha de que as provas eram falsas morre num acidente.

O filme parece ter um final feliz ao surgir uma carta deixada por esse amigo, a confirmar que tudo não passou de mentira. E eis que a história ensaia nova viragem: o herói, afinal, é mesmo um criminoso que imaginou a forma perfeita de escapar ao castigo, criando provas que seriam depois demolidas em tribunal. Se fosse considerado inocente, jamais poderia ser julgado de novo pelo crime que, de facto, cometera. No cinema de Lang, as aparências iludem, mas neste caso as viragens da lógica acabam por produzir um defeito de argumento: apesar da frieza, Andrews perde a calma e confessa à noiva que cometeu o homicídio.

Para compreendermos a história, alguém tem de nos explicar o motivo do crime, mas seria improvável que o próprio criminoso resolvesse a falta de provas. Ele é cruel e não tem remorsos. O seu deslize (sabia o nome passado da vítima) resolvia-se facilmente, pois as amigas da mulher assassinada podiam ter-lhe dado a informação. A polícia não tinha provas, nem sequer suspeitas, a justiça jamais o apanharia, pelo que a confissão é um gesto de inocência. Só no final percebemos que Andrews é um psicopata. Ao desistir de manipular, interrompe a nossa suspensão da descrença. Esta personagem jamais faria uma confissão tão tola e a única saída seria continuar a mentir, até acreditar na sua verdade, sem sombra de dúvida.

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publicado às 10:20




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