Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]




Questões de liderança

por Luís Naves, em 04.12.17

Houve sempre contestação e protestos, mas no pó-guerra a protecção americana garantiu aos europeus setenta anos de paz e progresso económico. A relação entre as duas margens do Atlântico nunca foi isenta de problemas, mas a actual liberdade dos europeus deve-se em grande parte à tutela americana. Essa liderança ainda existe, pelo menos na cultura popular, e mantém-se a parceria política, mas algo mudou na relação, e a mudança começou antes de Donald Trump, talvez durante a Grande Recessão. Esta aliança entre europeus e americanos entrou agora no seu ocaso, pois Washington assumiu uma nova estratégia e aceita uma ordem mundial diferente, baseada no equilíbrio entre potências e com um lugar de destaque para a China. Em vez de carregarem todo o fardo do homem ocidental, os americanos aceitam desligar-se de alguns conflitos regionais e admitem que o Japão ou a Europa tenham as suas próprias ambições. Esta mudança é lógica, mas o mundo em que nos habituámos a viver deixa de existir. É possível que na próxima geração os europeus sejam forçados a lidar sozinhos com a sua vizinhança, sobretudo com Rússia e Turquia, sobretudo com o perigoso Médio Oriente. Sem os britânicos, essa Europa será continental e, pela primeira vez, haverá uma hegemonia estável, no caso uma organização, a União Europeia, liderada pela França e pela Alemanha. Os desafios de transformar a UE numa potência são imensos, pois há questões de representatividade democrática, os países que a constituem tendem a formar blocos e as nações fortes que podiam moderar o directório Paris-Berlim (Itália, Espanha e Polónia) enfrentam crises internas. A América reduz a tutela sobre os aliados para se poder virar para os seus próprios problemas: a obsessão com as armas, o racismo tóxico, a facilidade com que os interesses especiais se apropriam da política, as oligarquias financeiras e o fundamentalismo religioso, as diferenças sociais crescentes e o fim daquilo a que se chamava o sonho americano, ou seja, a fácil ascensão social. Os europeus também têm de passar vários obstáculos: estabilizar a zona monetária, sair da estagnação económica, travar o envelhecimento da população mas, acima de tudo, terão de resolver as tensões em torno das suas identidades nacionais ameaçadas.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 19:05




Links

Locais Familiares

Alguns blogues anteriores

Boas Leituras