Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]




O fim do provincianismo

por Luís Naves, em 08.08.15

A literatura contemporânea reflecte muito sobre as imprecisões da realidade e, num contexto de civilização globalizada, deixou de haver lugar para pequenos nichos provincianos e línguas extravagantes. A literatura parte do mundo que existe, mas este é altamente incerto e fraccionado. A mudança está em toda a parte e escreve-se muito sobre isso. Nas sociedades evoluídas, existe uma imensa classe média, com gente igual e que pensa da mesma forma, mas se virmos o todo (e a consciência do que está lá fora começa a ser a consciência de algo que nos diz intimamente respeito), então parecemos fazer parte de um conflito dinâmico que separa ricos e pobres, que separa a cultura mundial e as que lhe resistem.

Hoje, podemos duvidar do que vemos, sabemos que há sobretudo pontos de vista, que a verdade é uma quimera e que um fanatismo irresponsável abraça os militantes das ideologias do passado, ao mesmo tempo que triunfa a cruel visão de um mundo sem ideologia e sem deuses, tão bacteriologicamente puro no seu materialismo que quase se pode confundir esse impulso com alguma ideia nova. O provincianismo morreu e está condenado na literatura, a não ser que haja nele certo exotismo enganador. Tudo, aliás, é enganador: a felicidade tornou-se efémera e isso impede os finais felizes; tenta-se escrever sobre a raiz das emoções na primeira pessoa e, devido a essa exposição, as personagens vão perdendo o mistério; se o resto é explícito, então não existe lugar para a elipse; e as histórias precisam de massa crítica, assim as aldeias extinguem-se, as vilas desaparecem, o tempo flui demasiado depressa para que as formas antigas sobrevivam.

publicado às 13:24




Links

Locais Familiares

Alguns blogues anteriores

Boas Leituras