Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]




Primeiro romance

por Luís Naves, em 25.01.24

caçadores primitivos3.jpeg

O primeiro romance não tinha uma única linha, pois isto aconteceu antes de existir escrita, mas a sua invenção pode ter sido quase tão importante como a descoberta e controlo do fogo. O nome do autor perdeu-se, mas sabemos que ele concebeu uma espécie de romance épico, transmitido com pequenas alterações durante pelo menos vinte milénios. Narradores das gerações seguintes, todos talentosos, introduziram modificações, mas não esqueciam os detalhes mais importantes da primeira ideia. Mesmo quando acrescentavam episódios da sua própria experiência, preservavam sempre o fio original.
A mesma história foi recontada na tribo durante incontáveis noites, passou para outras tribos e andou pelo mundo. Baseava-se numa longa caçada, que incluiu a perigosa viagem por terras desconhecidas e uma história de amor e de separação que, para nós, os sofisticados, talvez parecesse um pouco sentimental. O grupo de caça teria doze guerreiros, ou talvez sete, (são estes os números de personagens que costumam aparecer em todos os romances de heróis). Um dos guerreiros era o líder, outro parecia mais sábio, havia ainda um ambicioso e outro ressentido, o medroso, o sonhador e o trágico, o cómico, o fiel e o lunático, além de alguns sem grandes traços de caráter, mas que demonstravam sempre coragem quando o perigo não era sobrenatural, ou seja, quando não se enfrentava uma daquelas ameaças que criam terror no coração, pois ninguém de carne e osso as pode suportar.
Quantas pessoas se riram e choraram a escutar as peripécias deste grupo de caçadores, do seu espanto com os mistérios do mundo desconhecido, os desastres e as soluções inesperadas, o choque com as assombrosas possibilidades de morte, a escuridão da floresta, os prodigiosos abismos e precipícios, os animais ferozes, o combate com os canibais ou, pior, a emboscada dos mágicos com os seus feitiços perversos, antes do vislumbre da fúria do mar indomável onde no horizonte urravam gigantes com forma de nuvem.
Depois, a alegria de perceber que os caçadores, sob liderança tranquila do herói, encontraram um vale perfeito, fácil de defender e supremamente fértil, com toda a abundância de animais, clima ameno e estações suaves. Melhor ainda, nenhuma ocupação humana. Era território virgem que podia garantir à tribo a sobrevivência a longo prazo.
O líder e mais dois dos guerreiros voaram no caminho de volta, na direção da tribo e, neste ponto da narrativa, podíamos dizer que foi introduzido um pequeno defeito: demorara meses a viagem até à descoberta do paraíso, poucos dias no regresso, mas esta era afinal uma subtil invenção literária. Os regressos são sempre menos importantes do que as viagens de descoberta, muito mais curtos e condensados, pois já despidos de incerteza ou mistério. A literatura passa por cima do tédio e concentra-se apenas nas circunstâncias interessantes da existência exagerada.
Os heróis regressavam e o líder reencontrava-se com a mulher amada, que esperara por ele. Cenas de encher o coração. Convencida pela bondade da boa notícia, a tribo partia então para o vale abundante, numa peregrinação facilitada pelo conhecimento do melhor caminho. Evitando maus encontros, todos chegavam a salvo.
Estava inventado o final feliz, mas houve frequentes variações. Muitos narradores das gerações seguintes aproveitaram para sublinhar o mito da origem distante do seu povo e que o vale perfeito era a própria casa, estava ali à vista dos leitores.
No fundo, quem ouvisse esta história recontada pela milésima vez acreditava que ela era inteiramente verdadeira, mas não sabemos qual a parte que foi vivida ou a que foi imaginada. É este o maior mistério, sem dúvida. Havia mesmo canibais, feiticeiros e gigantes? O vale perfeito era autêntico? E os guerreiros, eram todos como foi contado ou simples descrições de pessoas verdadeiras que nunca abandonaram o local onde viveram?
Hoje, o nome do primeiro romancista não nos diria nada, mas não me importava de esclarecer o enigma de qual a parte de fantasia e a parte de verdade. Se me perguntarem, acredito que foi quase tudo inventado.

imagem gerada por inteligência artificial, Bing Image Creator

publicado às 11:24



Autores

João Villalobos e Luís Naves