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Perturbação

por Luís Naves, em 18.11.15

É nos momentos de perturbação e choque frontal com a realidade que vemos com maior nitidez a desagregação das sociedades contemporâneas. A degradação da política, por exemplo, e o declínio das ideologias, dois fenómenos paralelos que explicam o triunfo do cinismo e a ascensão das propostas populistas. Estabeleceu-se nos últimos vinte anos o curioso mito de haver uma ligação inevitável entre liberdade económica e prosperidade, mas a realidade é mais amarga: a globalização criou Estados falhados e, no mundo industrializado, trouxe sobretudo a ansiedade dos trabalhadores, que temem pela extinção dos seus postos de trabalho. Como explicar a riqueza pornográfica da elite económica dos gestores, cuja preponderância contraria os próprios princípios do capitalismo? E como explicar o trabalho não remunerado, literalmente absurdo, disfarçado de aprendizagem?

O capitalismo vive uma das suas piores crises, com o empobrecimento de parte da classe média, a morte das indústrias, a alta instabilidade dos mercados e o desemprego crónico. Mas o mundo contemporâneo revela também a profunda crise do Estado. Muitas profissões lutam hoje pela sobrevivência e estarão amanhã extintas. As democracias afogam-se em impotência e retórica. Pode vir por aí nova vaga de colapsos, desta vez nas economias emergentes, e serão os pobres a pagar as dívidas. O mandarinato abusa da injustiça e atraiçoa o povo. É incompreensível a eleição sistemática de políticos cada vez mais fracos. As elites mediáticas habitam o mundo da lua, com a sua linguagem de fachada ridicularizando valores tradicionais e negando o passado. A nossa identidade foi perseguida e estilhaçada. Os intelectuais desapareceram ou foram silenciados. A cultura transformou-se na busca do insignificante e a arte numa xaropada sentimental que cultiva a bela frase vazia e a lágrima ao canto do olho.

publicado às 10:44




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