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Perfeito oposto

por Luís Naves, em 07.03.15

Num jornal húngaro afirmava-se que a política local se tornou crispada nos últimos cinco anos e K. reagiu com a seguinte crítica: ao contrário do que se sugeria no texto, não havia nenhum período anterior sem crispação política. Em Portugal, onde estas coisas não se discutem, o artigo faria sentido, pois neste momento a crispação vai muito além do que é tradicional. Ao longo dos séculos, a política portuguesa tem sido caracterizada por longos períodos de sonolência, com ocasionais momentos revolucionários. Há acumulação de vapor e depois a sua libertação, o inverso do que sucede na Hungria, onde o vapor é constantemente libertado.

É curioso como os dois países são tantas vezes o perfeito oposto. Nós vivemos numa sociedade onde se verifica a intermitência do conflito. Na Hungria (como em outros países, como Polónia), a tradição é a oposta, existindo permanente agitação, com a substituição regular das elites. A estabilidade nunca é o bem mais precioso e a política húngara não tem medo das mudanças, pelo contrário, sempre que por razões externas uma situação se mantém, há tendência para o sistema rebentar com violência desesperada (foi o que aconteceu em 1848 e 1956). Nesse sentido, a Hungria actual é uma anomalia, com um líder que ignora e atropela os barões, tentando criar um regime mais estável do que o habitual. Portugal também vive num período anómalo, com reformas atabalhoadas feitas sob pressão externa e em contexto de invulgar crispação. A sociedade portuguesa é centrista e moderada, acumula vapor devagar e muda de maneira lenta. A sociedade húngara é rebelde e extremada, acumula vapor depressa e tudo pode mudar enquanto o diabo esfrega o olho.

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publicado às 23:37




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