Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]




Outros tempos

por Luís Naves, em 03.03.14

Alguns textos de opinião que tenho lido sobre a crise ucraniana mostram como a nossa imprensa se tornou provinciana, após anos de dedicação a pequenos escândalos triviais. Fazendo elaborados paralelos históricos, um autor definia como "nacionalista jugoslavo" o homem que matou em Sarajevo o arquiduque Francisco Fernando da Áustria-Hungria (parei a leitura naquele ponto). Outros autores, numa estranha lógica, culpam a Alemanha ou a Europa pela crise. Nos blogues, há sobretudo quem descreva os ucranianos como “escumalha fascista”, terminando a prosa com hinos ao glorioso exército vermelho. Há ainda o culpado Barack Obama, por inacção (devia enviar porta-aviões para o Mar Negro).
O contexto histórico é importante nos conflitos, mas facilmente se cede à tentação de ver nos protagonistas autómatos que obedecem de forma cega aos fantasmas do passado. A Rússia está a ter um comportamento anacrónico, talvez tenha cometido um erro, mas as coincidências deste caso com a crise de 1914 resumem-se a dois algarismos. O único império com tiques do século XIX é mesmo a Rússia e não existem alianças que permitam um conflito ou o entusiasmo popular por uma luta. As analogias com a Grande Guerra são exercícios intelectuais que apenas ajudam a ver as diferenças.

Apesar da Rússia, vivemos numa Era pós-imperial que corresponde a outro tempo. O mundo é hoje dominado pela finança e a nova vaga de globalização aumentou a interdependência económica dos países. Os media e a alfabetização provocaram uma transformação radical das mentalidades. A informação circula de forma global e as pessoas sabem o que se passa nos países vizinhos e, acima de tudo, o cidadão comum tem uma educação mais sofisticada, que lhe permite interpretar a informação. Se a Rússia conseguisse ocupar toda a Ucrânia, o descontentamento dos súbditos impediria qualquer controlo efectivo do país conquistado. A queda do Muro de Berlim teve esta causa, os regimes comunistas eram patéticos e as pessoas queriam liberdade e desenvolvimento.

 

O logro de Putin tem certamente uma boa dose de testosterona, mas também um tempo certo e objectivos limitados. Haverá custos, que provavelmente o presidente russo avaliou e não se importará de pagar. Entre as cinco potências contemporâneas, a Rússia é a mais débil e a mais insegura. Ficará provavelmente com a Crimeia, região que só é verdadeiramente estratégica se também incluir Istambul. O império russo tem outras debilidades, incluindo apoio a tiranos na Bielorrússia e Casaquistão, fragilidade económica, dependência de exportações de matérias-primas, oligarquias corruptas, a questão demográfica e a vastidão territorial, ausência de verdadeiros aliados (a China pode transformar-se num rival), a descrença da classe média e dos intelectuais, enfim, podia continuar.
Com o divórcio litigioso, os ucranianos poderão completar a revolução pós-comunista e juntar-se às democracias parlamentares do ocidente. Têm esse direito. Quem associa os manifestantes de Kiev a um bando de fascistas esquece que a União Europeia tem critérios exigentes na adesão de novos membros, critérios que não dispensam um lento processo de aproximação. Se os fascistas estivessem no poder, ou sequer perto, a esperança de adesão seria nula e o país ficaria isolado. Como aconteceu na Polónia ou na Hungria, que eram mais desenvolvidas, a transição na Ucrânia levará pelo menos 20 anos e a simples adesão dez anos.
 
Quanto às culpas da Alemanha, é curioso que um país com democracia exemplar, estado social modelo e comportamento pacífico, a tender para a neutralidade, seja sistematicamente diabolizado.
O que parece escapar aos comentadores é o facto de vivermos num tempo invulgarmente pacífico e nenhuma das potências ter qualquer interesse em provocar um conflito de grandes dimensões. A afirmação é ainda mais válida para os europeus, cujas acções de polícia não contam para este campeonato. Sendo uma organização pós-imperial com funcionamento inovador, a UE tornou-se numa referência para povos que vivem sob regimes autoritários. Isto, claro, nunca será discutido nas eleições europeias que se avizinham, pois os nossos debates são sempre sobre a minúcia saloia.

 

 

Este texto de Outubro recomenda a cautela...

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 12:52


1 comentário

Sem imagem de perfil

De Romão a 04.03.2014 às 12:22

Acho que só a Merkel tem noção do perigo que representa a Rússia para a UE. A maioria dos analistas, esquecem aquilo que tecnicamente a AIE chama de \"segurança de abastecimento\". Face ao decréscimo de produção de petróleo do Mar do Norte a dependência da UE face á Rússia é enorme (30%). A dependência do gás natural russo é também significativo (25%).Para além disso a Rússia tem adquirido ao longo dos anos vários activos no \"downstream\" Europeu que lhe permite o controlo de gasodutos no espaço da UE. Ou seja, permite-lhe o controlo não só do fornecimento como em muitos casos da distribuição. E face aos acontecimentos passados na Bielorrusia onde lhes foi cortado o fornecimento ninguém tem a Rússia como fornecedor fiável. Tudo isto representa uma estratégia expansionista de Moscovo baseada nos seus recursos naturais. Para além disso a Sra. Merkel sempre teve relações comerciais com a Rússia sem dar grande conversa á UE. Há muito dinheiro alemão investido em empresas russas o que para a chanceler deve ser um problema neste momento.

Comentar post




Links

Locais Familiares

Alguns blogues anteriores

Boas Leituras