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Os heróis vão morrendo

por Luís Naves, em 27.08.14

Alguns heróis da minha juventude estão a morrer. Se perguntarmos a um jovem de 15 anos o que acha das aventuras de Blake e Mortimer, o mais provável será recebermos um olhar vazio, em forma de ponto de interrogação. A obra-prima de Edgar Pierre Jacobs dava para escrever um tratado. As histórias de ficção científica de Blake e Mortimer estão entre as melhores do género e a série representa o cume da arte da banda desenhada, sobretudo o Mistério da Grande Pirâmide, Armadilha Diabólica, SOS Meteor e A Marca Amarela. Há desenho rigoroso, criação de ambientes, personagens fabulosas, detalhe levado ao extremo obsessivo, fluxo narrativo perfeito. Fico perplexo quando vejo que a nova geração só lê manga japonesa e que o cinema de Hollywood tem os seus maiores lucros nas adaptações de histórias da Marvel, cuja qualidade nunca chegou aos calcanhares da banda desenhada franco-belga.

O gosto evolui, mas é estranha a forma como, no conceito das novas gerações, Jacobs parece ter envelhecido. Em comparação, a banda desenhada americana era mais infantil, com histórias básicas, pouco credíveis e produzidas de forma industrial.

Gosto imenso da cultura popular americana, mas é espantoso ver como a banda desenhada europeia foi cilindrada pelo mercado, transformando-se em mera curiosidade. Passou uma geração e muitas obras clássicas do género são difíceis de encontrar. Em Portugal, é complicado consumir cinema europeu ou banda desenhada europeia e música que não seja anglo-saxónica (não é inacessível, mas dispendioso).

No que se refere à cultura popular, Portugal pouco mais é do que uma colónia do gosto americano. E não me venham com a treta de que essa é a escolha das pessoas, porque quando os colonizadores queriam justificar a colonização, havia sempre uma conversa semelhante.

 

Esta crónica baseia-se em algumas linhas de um texto escrito em Janeiro de 2012

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publicado às 10:49


2 comentários

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De João Távora a 27.08.2014 às 11:27

É verdade o que dizes, mas não sei se é apenas isso - a industria do entretenimento audio-visual trouxe um cardápio produtos irresistíveis que relevam a BD (mesmo a americana) para a um nicho de curiosos. Se te serve de consolação, eu consegui passar à minha prole o gosto pela BD franco-belga e o meu enteado é fã de Blake e Mortimer.
Forte abraço!
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De Luís Naves a 27.08.2014 às 18:01

Ainda há esperança, naturalmente...Um forte abraço

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