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Os habitantes do aeroporto

por Luís Naves, em 18.12.14

Recomendo a leitura deste espantoso texto sobre os estranhos habitantes do terminal ultra-moderno do aeroporto de Barajas, em Madrid. A escrita evita as armadilhas do sentimentalismo e mostra a fauna de um eco-sistema secreto. Os protagonistas são invisíveis a quem por ali passar, apesar de comerem os restos que os passageiros deixam nas mesas do fast-food e de usarem os lavabos, apesar de andarem pelo terminal como se fossem apanhar algum avião, até arrastando malas vazias. Para os ver, é preciso estar atento, por isso ninguém repara neles. Nunca levantam voo, nunca chegam ao destino, pois não têm propriamente um destino. Um destes fantasmas diz receber uma pequena pensão de 300 euros, o que o dispensa de comer restos; e até usa computador portátil, navegando no sistema wi-fi. Nem todos conseguem esta camuflagem perfeita, mas os viajantes do vazio andam limpos, parecem passageiros em trânsito, escondem-se entre a multidão, passam ali os dias e as noites, protegidos do frio, sem jamais embarcarem em qualquer um dos mil voos diários. Alguns usam truques para pedir esmola, geralmente envolvendo complicações com o passaporte. Neste terminal de aeroporto vive uma espécie em extinção, com gente incorpórea e anónima, os de nenhum lugar.

 

Também publicado no Delito, com alterações

publicado às 19:42




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