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Os excluídos

por Luís Naves, em 19.06.16

As pessoas desconfiam cada vez mais daquilo que lêem e refugiam-se nos territórios da imaginação e do irreal. Tornou-se fácil detectar informação incompleta ou distorcida, mas também é normal encontrar informação manipulada ou falsa. Nas democracias avançadas, a política tornou-se crispada e as divisões da sociedade estão à mostra. Tudo piorou com a crise financeira, que estilhaçou os entendimentos habituais e proporcionou a explosão da retórica populista, segundo a qual a opinião pública não deve confiar na informação disponível. Assim, na actual década, cresceu o fosso entre cosmopolitas e conservadores, entre defensores e críticos da imigração, entre globalistas e tradicionalistas

Hoje, contesta-se a livre circulação de dinheiro e o poder das elites. Muitos defendem a fragmentação da sociedade em condomínios privados, em oposição aos que querem impor determinados modelos obrigatórios de liberdade. Há ainda quem queira limitar o direito de opinião e nota-se o aumento da intolerância nas críticas a teses adversárias, o triunfo da linguagem politicamente correcta ou o uso e abuso do duplo critério na análise de qualquer assunto. A política contemporânea parece impotente para combater o descontentamento: os poderosos mentiram-nos e escaparam com impunidade, a escada social é uma fantasia, a mudança é uma impostura, ganham sempre os fortes.

E, apesar de tudo, a insatisfação popular tem limites: não destruam o nosso conforto mínimo, não mexam nos nossos melhores entretenimentos e não afectem o nosso futuro na velhice. Nessas condições, haverá desconfiança sem violência; as rupturas serão, no máximo, reversíveis e hesitantes. As pessoas desconfiam cada vez mais daquilo que lêem e algumas delas vivem nas franjas de uma sociedade que as abandona ou ignora. Uma legião de excluídos habita em universos paralelos onde não se aplica a lei da realidade. Enfim, toda a gente terá porventura pensamentos com pequenas doses homeopáticas de universo paralelo, daí não viria mal ao mundo, mas alguns desgraçados habitam nos abismos da paranóia, cercados de hostilidade, no círculo vicioso das ilusões auto-alimentadas.

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publicado às 11:41




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