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Os eremitas

por Luís Naves, em 10.11.14

Vejo em cada dia estes eremitas. Estão sentados melancolicamente nas mesas do centro comercial, procurando ali no Verão a frescura do ar condicionado ou, quando faz mais frio, o conforto do calor artificial. Quando um deles desaparece, imagino que tenha adoecido gravemente. Alguns dormitam, outros estão a pensar, a ler o jornal, a habitar o abandono, por vezes a conversar em monólogos. Vivem sozinhos, já resignados. Estão esquecidos e são iguais aos solitários de outrora, iguais aos velhos que ainda resistem nas serras vazias, com as memórias embotadas, a espinha curvada e os longos dias pela frente. Os velhos náufragos da cidade evitam meter conversa com estranhos, escorregam na sonolência da tarde e recordam as correrias de criança, os amores profanos e o tempo dos sonhos. Estão por ali umas horas, na ausência de amanhã, a ver passar os jovens apressados, depois pegam no jornal já lido e sem notícias ou pegam no nada que trazem nas mãos, e regressam devagar ao silêncio das suas casas, onde jazem as memórias de viúvos. Ali, já não os vejo: estão nas suas cavernas de eremita, contemplando a suave espera da morte.

publicado às 10:44




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