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Os Anjos

por Luís Naves, em 24.03.15

Andei hoje à toa pelos labirintos da cidade e vim aqui dar. Ao fundo da rua, há uma frutaria, mas podia ser pastelaria ou cabeleireiro; um grupo encosta-se a fumar no intervalo do trabalho e, na tabacaria, um jornal grita sobre a primavera de Atenas. Parece patetice, mas talvez haja primavera em Atenas, sem este vento gélido que me arrepia. Numa banca pague o que quiser vendem ao desbarato velhos livros, o anjo branco, o cadáver que não se calou, insónia; as páginas acumulam poeira e, ao lado, no café triste, sentam-se clientes pensativos, que olham através da vidraça. A rua estende-se e passo pela loja dos paquistaneses, pelo fabuloso mundo do acrílico, pela entrada do escritório de advogados no segundo andar. Cruzo-me com uma família indiana, sinto o golpe de vento desagradável que arrasta para longe palavras numa língua desconhecida.

Morreu o poeta Herberto Helder, os seus livros estão à venda numa livraria, folheio e encontro esta frase: “É na morte de um poeta que se principia a ver que o mundo é eterno”. Será então eterna a agitação inquieta do vento? A casa cor-de-rosa e o intenso verde? A estação de metropolitano de escuridão fúnebre e, cá fora, a luz ofuscante da tarde?

Deambulei sem rumo até este recanto dos Anjos. O sem-abrigo fala alto, os rapazes jogam às cartas, separados dos ucranianos, que conversam na sua própria mesa (a semana da Ucrânia tem música e gastronomia, dizia-se no cartaz ao lado do edital da junta). E tento recordar-me do que fiz antes: um jovem foi pouco cortês comigo; observei uma rapariga que chorava ao telefone, a pedir desculpa, em lágrimas; e também observei um casal feliz, o único casal feliz visível na carruagem de metropolitano, embora acredite que houvesse mais gente feliz, só que não se mostrava. Por aqui, brilha o dia cortante e as caras estão silenciosas. Há desocupados, um senhor transporta uma pasta (o que levará)? Então, avança pelo centro da cena uma mulher que coxeia. Em volta, há crianças e velhos, cada um a pensar que é o centro de tudo. Observo a africana gorda que passa em chinelos de bico e o cão escanzelado a farejar uma árvore. Ouve-se música rap e desliza um ciclista de capacete. Passam-se aliás muitas outras coisas que mal percebo, uma multidão delas, de trânsito e gente a ir para casa, de acontecimentos sem fim, de transições, momentos, meditações e riso, discussões, pequenos nadas, frases soltas e gestos minúsculos. No ar transparente, paira um grão de eternidade, a velhinha que o turbilhão de vento quase derruba, o cão que procura cheiros. Nada disto faz sentido por si e, no entanto, tudo perfaz um resultado certo, os Anjos parecem conter (como escreveu o poeta) as cavernas do mundo.

publicado às 18:15




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