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O tradicional mínimo denominador comum

por Luís Naves, em 19.03.16

Na Síria, a tentativa de reformar o regime ditatorial da família al-Assad foi reprimida com uma brutalidade invulgar, mesmo para os padrões do Médio Oriente, o que conduziu a uma guerra civil de rara violência, onde participam activamente vários países. O resultado foi uma vaga de refugiados, numa escala que não se via há 50 anos. A Europa foi atingida pelos estilhaços do colapso da ordem política que existia no Médio Oriente. À onda de sírios, juntaram-se rios de outras nações, numa inundação que em poucos meses somou mais de um milhão de pessoas.

Os países da UE dividiram-se sobre a estratégia a adoptar, naquela que é sem dúvida a pior crise que a integração europeia já enfrentou. Esta semana foi alcançado um acordo mínimo que desagrada a todos: os que querem limitar a entrada de refugiados não conseguem explicar porque é que uns entram na Europa e outros, com os mesmos direitos, não entram. Como é que se faz a escolha dos afortunados? Os que defendem a entrada ilimitada não explicam como é que os refugiados serão integrados nas sociedades europeias sem se criar uma onda de rejeição que beneficie os partidos populistas. Esse lado da discussão coloca o tema num patamar moral e não esclarece como é que se faz a gestão das multidões na rota dos Balcãs, agora fechada. Os países de passagem têm soberania, controlam as suas fronteiras e territórios, ou devem simplesmente deixar passar toda a gente?

A solução europeia desagrada aos “humanitários” por parecer desumana. Os críticos acham que a UE não devia ter feito concessões à Turquia, apesar de não ser possível resolver o problema se Ancara for excluída, pois há 3 milhões de refugiados sírios em território turco. Os países dos Balcãs viram os seus direitos reconhecidos (afinal, são independentes, com fronteiras), mas isso também não agrada aos argumentos morais, pois os refugiados só querem passar pelos territórios balcânicos, não pretendem permanecer. A solução alcançada tem um aspecto hipócrita (os refugiados que entrarem voltam a sair para entrarem mais tarde) e permite que continue a discussão demagógica, mas pelo menos preservou-se um mínimo de unidade europeia, sem alienar a Turquia, a quem estava a ser dito mais ou menos que “os sírios podem entrar, mas os turcos ficam fora”.

 

Nem de propósito, encontrei este artigo, onde se resumem alguns dos argumentos principais dos críticos do acordo. Mas a Europa só negoceia com democracias impolutas, não fala com regimes autoritários? Os refugiados sírios estão a ser maltratados na Turquia? As declarações de Erdogan não estarão ligadas aos ataques terroristas? Qual foi o contexto da frase? A vaga de imigração económica de que fala o autor tem mesmo de ser aceite pelos países europeus, é obrigatório? Dito de outra forma, qual é a obrigação, para os países membros da UE, de aceitar imigrantes económicos, que pelos vistos tanta falta fazem à economia alemã, mas muito pouca falta fazem à economia portuguesa? E a descrição das instituições europeias é delirante: de um lado temos instituições impecáveis (embora não eleitas) e do outro lado temos governos pouco eficazes (embora eleitos). Vamos dispensar os segundos? 

publicado às 11:19




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