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O tempo, sempre cruel

por Luís Naves, em 22.12.14

Deve haver uma componente de inspiração no trabalho de uma oficina como esta, pois há dias em que não me ocorre nenhuma ideia estruturada, somente alguns pequenos farrapos que não chegam para produzir um texto com cabeça, tronco e membros. Aliás, como podemos saber que um texto possui essas características, se afinal contém apenas palavras e frases seguidas, pensadas para leitura em voz alta, mas de alguma forma incorpóreas e abstractas? Como podemos saber que existe aqui uma hipótese de leitura, algo que um leitor imaginário possa aceitar e compreender, talvez não neste momento exacto, mas daqui a alguns anos? Estou a admitir que alguém possa ler estas palavras dentro de alguns anos, o que parece de todo absurdo, pois olhamos para dentro de um ‘corpo eléctrico’ (e estou a roubar a expressão), sem grande densidade ou massa, apenas sinais num espaço de fantasia que o tempo se encarregará de destruir com um minúsculo estalido. Assim acabará este texto, esquecido agora mesmo por quem o escreveu, atravessando o limbo da não-leitura, publicado dias depois de ser escrito, adormecido neste lugar feito de ausência, depois apagado por qualquer ruptura tecnológica que o torne obsoleto. E, no entanto, esforço-me por o fazer com cabeça, tronco e membros, o que quer que isso signifique na sua estrutura invisível, presumivelmente quase nada, pois estas palavras são minúsculas no imenso universo, embora não exactamente insignificantes, pois têm algum vago sentido, ou devem ter lugar na inesgotável criação humana. Pretendem dizer algo débil e quase inaudível, que o tempo, sempre cruel, apagará na mesma.

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publicado às 11:59




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