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O país que resiste

por Luís Naves, em 21.11.15

Lemos os romances de Camilo Castelo Branco e encontramos um país que resiste à mudança como certas bactérias que se riem dos antibióticos. As personagens camilianas são obcecadas com a origem social e todas se curvam perante fidalgos falidos, dispensados do trabalho e que têm nomes que ocupam linhas de texto. Os facínoras são cobardes, estúpidos e sujos. As páginas do mestre estão repletas de injustiças e beatices. E há o ocasional fala-barato, de mistura com muita hipocrisia e má-língua. O que mais choca nos livros de Camilo é o imenso orgulho dos pobres que contemplam os seus pergaminhos familiares, a inveja cega dos arrivistas, a ignorância militante dos poderosos. O que mais choca nos livros de Camilo é o atraso e a pobreza de uma sociedade que ainda hoje mostra as limitações do país de há 150 anos, pois temos os mesmos conflitos políticos, cuja complexidade será incompreensível no mês seguinte e que dependem da fidelidade aos humores de um chefe. Tal como nos romances de Camilo, persiste em Portugal uma ordem social não escrita que é determinante para decidir o destino de cada cidadão, as cunhas com que se progride na escada hierárquica, os privilégios e direitos adquiridos, indiscutíveis. O nosso provincianismo está tal e qual: Camilo, no meio dos sarcasmos e das citações, nem se dá conta da pantanosa existência nacional, por exemplo, ao descrever com detalhe e gosto as manias das modas, a genealogia dos imbecis, ao descrever a falta de escrúpulos e a desconfiança avarenta, as palas ideológicas e a ignorância estrutural de tantas das suas personagens. Claro que o autor inventou centenas de figuras positivas, mas o que surpreende é que estas parecem bem menos credíveis do que as outras, desenhadas com brutal autenticidade.

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publicado às 19:51




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