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Pedaços do mundo e grãos de areia

Fala-se nos sete samurais, todos heróis, mas houve o oitavo e ninguém ouviu falar dele. Takeyama foi um guerreiro errante em tempos conturbados. Combateu a favor de causas perdidas de gente que nunca lhe agradeceu o sacrifício. Nessa época de injustiças, os camponeses pagavam um preço elevado pela iniquidade dos senhores gananciosos. A vida era fácil para quem exercesse a opressão e a maldade e, pelo contrário, bem difícil para quem pertencesse à inúmera multidão daqueles que apenas pretendem prosseguir com as suas existências, por muito modestas que sejam. Sem trabalho no meio de tais perturbações, Takeyama vendia o braço e a espada (e que excelente espadachim ele foi) a quem pagasse melhor, mas cansou-se dos vencedores e das suas ambições vazias. Por isso, começou a vaguear pelo mundo, em busca de boas lutas, e aceitava por vezes a esmola dos que pouco tinham, que são aliás sempre os mais generosos. Habituou-se assim à solidão ou à companhia dos insignificantes. Percorria campos, vales e florestas, sem rumo e sem abrigo, confortável com os seus pensamentos. Por vezes, passava por uma aldeia devastada, que algum senhor da guerra tinha mandado destruir, e o seu coração sangrava com o sofrimento alheio. Até que um dia se cruzou com um bando que pretendia arrasar uma aldeia que não pagara um tributo. Estes bandidos estavam dispostos a contratar generosamente os seus serviços, mas dessa vez o samurai juntou-se aos camponeses indefesos e organizou a resistência. Foi um combate terrível e os que deviam perder, perderam. A epopeia acabou com a rendição da aldeia, que sob a ameaça dos invasores renegou o seu defensor solitário. Durante a luta desesperada, Takeyama trespassou muitos inimigos, mas acabou por ser abatido à distância por arqueiros. As pessoas de hoje lembram-se dos sete samurais e esqueceram-se deste, talvez por ter perdido. O oitavo samurai lutou pela justiça em circunstâncias impossíveis. Ele mereceu certamente as alegrias do paraíso e, sabendo que fazer o bem é a maior riqueza que podemos ter na vida terrena, preferiu exercer as virtudes da caridade e da honra sem esperar receber algo em troca, apenas por achar que estava ali o seu destino. Takeyama nunca se preocupou em obter a mesma fama que bafejou os outros sete samurais, cujos feitos, na minha opinião, tiveram dificuldade bem menor.
imagem gerada por inteligência artificial, Night Café