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O falhanço da esquerda

por Luís Naves, em 22.03.15

A Frente Nacional de Marine Le Pen deverá obter hoje um resultado histórico nas eleições departamentais francesas, pois as sondagens dão à extrema-direita mais de 30% das intenções de voto. Os gaulistas da UMP acabarão por vencer na segunda volta, mas arriscam-se a ficar em segundo lugar ou em posição demasiado próxima da FN. A esquerda pode sofrer uma verdadeira calamidade eleitoral e na generalidade das análises paira uma perplexidade incapaz de explicar a rebelião do eleitorado.

Este artigo esclarece um pouco melhor os dados do problema: a FN está a atrair votos da esquerda e a explicação de Laurent Bouvet sugere um erro recorrente da fragmentada esquerda francesa, incompetente a ler as ansiedades das classes trabalhadoras e demasiado preocupada com as causas fracturantes e com os problemas das minorias. O autor afirma inclusivamente que a sensação de alienação dos trabalhadores em relação às elites esquerdistas dos ‘bobos’ (em francês, síntese de burgueses e boémios) se deve à circunstância das suas queixas serem sistematicamente desvalorizadas por essa elite e mesmo consideradas racistas.

As eleições departamentais francesas* não têm importância política transcendente, mas a subida da Frente Nacional ilustra bem os problemas da esquerda europeia, incapaz de construir um discurso de acordo com as suas tradições. O declínio destes partidos encontra-se em outros países onde ocorreu o mesmo abandono das preocupações das classes trabalhadoras, à excepção de Portugal, onde o grau de demagogia da pré-campanha já indica que nenhum partido pretende discutir a ansiedade económica dos cidadãos e os efeitos sociais da crise. O descontentamento terá de ir para algum lado e os populistas tendem a ocupar um espaço que se esvazia, mas a sete meses das eleições Portugal contraria as tendências: não aparecem nem crescem os novos partidos e todos mantêm a conversa do costume, fintando os verdadeiros debates.

 

* A FN ficou em segundo lugar na primeira volta, obtendo 25% dos votos. A UMP de Sarkozy deverá obter uma grande vitória na segunda volta, mas estas eleições mostram a força da extrema-direita nacionalista e anti-liberal, que cavalga de forma eficaz a contestação popular ao capitalismo e à União Europeia.

 

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publicado às 12:02




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