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O declínio

por Luís Naves, em 26.08.14

Como se escreve neste brilhante texto de Pedro Correia, o mundo contemporâneo parece autocentrado, repleto de frivolidade e niilismo. E, no entanto, nunca houve tanta abundância, nem sensação de infelicidade tão generalizada. Nas sociedades industrializadas, toda a gente vive na angústia de cair para a base da pirâmide social, onde existe a minoria do gueto e a discriminação silenciosa. O descontentamento explica que os ciclos políticos sejam cada vez mais efémeros e os casamentos mais curtos. A vida passa depressa, comprimida de forma frenética em dias que deixam poucas recordações. Depois, há tantos objectos nas lojas, que nenhum deles se torna especial. As interrupções sistemáticas de aparelhos de comunicação não deixam tempo para pensar. De certa forma, estes aparelhos dificultam a comunicação humana: vivemos em rede, como as abelhas; e, paradoxalmente, o espaço em que nos movemos é cada vez menos público. Nas cidades, cada pessoa habita a sua solidão, o seu carro, a sua música, a sua minúscula casa. Não há tempo e não se conversa (aliás, ninguém o deseja). Temos uma ideia heróica sobre o passado e uma visão pessimista do presente. A nossa vida é superficial e veloz, obcecada com a beleza do corpo, o aspecto exterior e a imagem. O mundo tornou-se ruidoso, impaciente, e acima de tudo insatisfatório: obsceno nos  desperdícios, decadente na arte, capaz de oferecer a abundância mais sufocante e o exacto inverso, o sufoco da escassez para todos os que não se aguentam na mediania quotidiana.

 

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publicado às 16:52


2 comentários

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De AEfetivamente a 26.08.2014 às 18:54

Concordo com a (excelente) análise do Pedro e com a sua (excelente também).
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De Luís Naves a 26.08.2014 às 22:18

agradeço muito o seu comentário.

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