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Nostalgia do que não vivi

por Luís Naves, em 27.03.15

Tenho nostalgia das vidas que podia ter vivido. Tenho saudades do que nunca vivi, botânico ou pintor, operário, empregado de balcão. Deixei livros a meio, deixei essas minhas vidas possíveis sempre a meio. Sonhei com fantasias e nunca terminei mil artigos de jornal. Podia ter sido muita coisa e fui de tudo um pouco. Nunca me interessaram as flores ou as máquinas, mas agora sinto o vazio do que não soube apreciar. Houve acasos em número interminável (e já nem os recordo a todos exactamente) que me levaram em direcções opostas às que podiam ter sido e lembro-me muitas vezes das existências que não experimentei. Por vezes, passo junto a uma casa e penso como seria viver ali, ocupar aquele espaço, transformar aqueles quartos, olhar pelas janelas de outra forma. Por vezes, converso com uma pessoa que sabe qualquer coisa e penso em como gostaria de saber tudo aquilo que ela sabe: se o desejasse, também seria músico, cirurgião, agricultor, vagabundo. Na imaginação, posso ser quem eu quiser, do tempo que me apetecer. Assim, fui de cada época, assisti a revoluções e colapsos, como fazem os simples viajantes no tempo, tentando não pisar borboletas. Desejei tudo o que não tive, viajei por todos os sítios onde não estive. Cada pessoa contém dentro de si uma multidão e por isso sou tudo aquilo que nunca fui.

publicado às 11:21




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