Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]




Nevoeiro

por Luís Naves, em 21.06.15

A capacidade narrativa será talvez conseguir traduzir uma ideia numa realidade imaginável, fiel à compreensão da essência humana ou de uma sociedade alargada, sem dúvida criando através das palavras figuras semelhantes a pessoas e que o leitor pode completar usando a sua própria fantasia. O estilo é um elemento importante e ninguém duvida do impacto de uma frase rica, mas não me parece justo acreditar no dilema entre escrever muito ou escrever pouco, que o primeiro seja melhor do que o outro, pois a escrita é um processo individual e o autor apenas procura interpretações limitadas da vida, ocupando consciências alheias que não a sua: afinal, a imaginação dele é demasiado imperfeita a partir de certos patamares de intimidade com essas personagens; depois, existem limites físicos, a memória imprecisa, vivências demasiado banais; além disso, cada época terá um número finito de possibilidades de ficção, pois o essencial estará inventado, embora neste ponto tenha grandes dúvidas, pois tudo aquilo que nos rodeia parece também ser inesgotável. Escrevemos muito? Alguns afirmam isso, que há demasiada literatura, embora me pareça ocorrer o contrário, pois o que não se escrever será esquecido* e grande parte da experiência humana é esquecida. Falo por mim, não me ocorre mais do que uma espécie de denso nevoeiro onde sei que existem seres sem forma e ali apenas tento detectar, em vão, uma ideia concreta que abra os meus olhos à luz baça do dia, enquanto a mão aguarda pelo momento mágico em que, por qualquer milagre da minha mente, o nevoeiro se dissipe.

* li esta ideia simples num texto do Le Monde sobre James Salter, escritor americano que morreu esta semana

publicado às 11:49




Links

Locais Familiares

Alguns blogues anteriores

Boas Leituras