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Muros e silêncio

por Luís Naves, em 02.10.15

Insónia, desânimo. Lá fora, há um rumor de cidade que desperta. O tempo arrasta-se. A noite está por um fio. Não me agrada a solidão, a sensação de fome, a ligeira dor de cabeça. Devo andar em leituras deprimentes e os meus trabalhos inúteis estão todos atrasados. De resto, só vejo muros e silêncio.

O país também anda no fio. Já é sexta-feira, último dia da campanha: as sondagens dão vitória à coligação de direita, o que devia ser boa notícia, mas tenho um mau pressentimento: vencendo com 38%, segundo dizem as sondagens, os partidos da coligação perdem pelo menos 600 mil votos e a maioria absoluta; num parlamento com maioria de esquerda, haverá a tentação de formar um governo alternativo; enfim, em qualquer dos cenários prováveis, vem aí instabilidade política.

Nos últimos seis anos, o país foi sangrado e espantou-me muito que esta campanha tenha passado ao lado do tema da crise social, que está longe de terminada: temos desemprego de longo prazo insustentável e os partidos não adiantaram a sombra de uma ideia para resolver o problema; as bolsas de pobreza são evidentes; os pequenos negócios dissolvem-se numa conjuntura de indiferença. O país mergulhou num crispado labirinto de hipocrisia e negação. A campanha fez vista grossa da realidade onde se movem tantos portugueses e que é tão fácil de ver na rua: há os desocupados pelos bancos de jardim, os desdentados, os alucinados que falam alto, o total desaparecimento da cortesia. E, mesmo ao lado, o parque automóvel novinho em folha, a exuberância e frenesim do consumo, esse outro país de ricos que olha com sobranceria para o país de pobres.

O facto é que na próxima semana continuaremos endividados e com a economia frágil, sujeitos à ditadura dos mercados e ao desinteresse dos europeus. A Grécia estava sob resgate quando se envolveu em pantanosas negociações de seis meses. Deu o que deu, mas para nós não existe esse luxo do tempo, obtemos dinheiro nos mercados financeiros e qualquer erro será imediatamente punido. O ajustamento não terminou, há reformas duras por fazer, isto ainda só vai a meio, a instabilidade política vem na altura errada. O país precisava de um novo ciclo que acabasse com o desânimo, terá provavelmente um longo período de transição, num barril de pólvora com pavio curto.

publicado às 05:51




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