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Muito me surpreendia a mudança

por Luís Naves, em 17.03.15

Se tivesse nascido em 1861, seria agora 1915 e o mundo era muito diferente daquele em que eu nascera. Era talvez agricultor não muito alfabetizado, com uma vida típica das pequenas comunidades. Acho que antes dos 30 anos teria emigrado para o Brasil, ou tentado, mas o mais certo era já ter morrido, das febres tropicais na tal aventura brasileira, ou algures no início do século, de apoplexia. Se ainda vivesse, era mais baixo do que sou e muito mais pobre. Antes dos meus 30 anos, Portugal endividara-se, entrando numa longa crise financeira que tornou mais difícil a vida dos pobres: o desemprego era terrível e havia forte mortalidade; em 1910, nos meus 49 anos, a monarquia fora derrubada e vivíamos desde então numa convulsão política que abalava muitos costumes. Felizmente, a agitação era mais ruidosa nas cidades. Segundo relatavam os jornais que vinham de Lisboa, na Europa alastrava uma guerra de grandes dimensões, na realidade uma carnificina, e soavam as vozes dos que se queriam juntar ao morticínio, pois os portugueses, ainda neutros, já tinham combatido em África contra soldados alemães.

Aos 53 anos, eu sabia bem que o mundo era inteiramente dominado por potências imperiais cristãs e provavelmente concordava com os sermões sobre a superioridade da minha forma de viver. De resto, sentia que estava tudo em transformação: até já vira um avião a passar ao longe, com muito espanto meu; os carros já não surpreendiam ninguém, mas ainda era incrível todo aquele ruído que faziam; e a electricidade, essa, era uma maravilha; o cinema, nem me digam, tudo mexia à nossa frente, num verdadeiro susto. As melhores ideias do meu tempo demoravam a chegar ao nosso país, quanto mais à província, e sendo improvável que um ignorante como eu se interessasse pelo romance ou pela pintura, dificilmente poderia conhecer as novidades, os modernistas e os impressionistas, que faziam coisas horrivelmente distorcidas. Aliás, o mundo que aí vinha era todo ele horrível, bastava ver o que faziam as máquinas voadoras e os grandes canhões de aço. Sim, estaria quase a completar 54 anos, estávamos em Março de 1915, ano difícil; no entardecer instável das serras diluía-se a palidez do dia e já era hora de acender o meu candeeiro de querosene.

publicado às 18:46




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