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Momentos do jogo

por Luís Naves, em 11.12.14

Embora seja uma boa metáfora da vida, o futebol é desprezado por alguns intelectuais. Envolvendo-se em assuntos mais sérios, não compreendem que na rua toda a gente comenta e sabe muito sobre futebol porque toda a gente tem uma perspectiva sobre a existência humana. Recentemente, um treinador que costuma ser ridicularizado disse mais sobre a vida do que alguns compêndios. Questionado pela milésima vez sobre uma minúcia táctica que ninguém recordava, Jorge Jesus perdeu a paciência e explicou que isso não interessava para nada, o importante era a forma como os jogadores reagiam “aos momentos do jogo”. Curiosamente, foi também uma boa lição para a literatura. O que interessa não é o sistema ou a forma prevista na teoria, mas a dinâmica e o fluxo da prosa; o que interessa é a maneira como as pessoas reagem aos “momentos da vida” e como superam as crises, através dos golpes de asa, das improvisações e das grandes cenas. Recordamos segmentos limitados de um jogo, como esquecemos quase tudo o que vivemos e não podemos lembrar tudo aquilo que lemos. A maior fatia do tempo serve apenas para nos levar de um momento memorável para outro momento assim, embora o intervalo seja relativamente vazio de conteúdo. Isso funciona da mesma forma no jogo de futebol e no romance de ficção: nem tudo será lembrado e o que conta são os momentos (aquilo a que alguns chamam a dinâmica) contendo drama e emoção, algo de diferente, mas sobretudo de intenso, que nos fique gravado na memória, não exactamente como aconteceu, mas ligeiramente transformado em mito ou moldado pela fantasia.

publicado às 19:16




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