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Mitos de leste

por Luís Naves, em 28.02.14

A cobertura jornalística pró-russa do conflito na Ucrânia é mais um sintoma da crise em que vive a comunicação social portuguesa. Embora a Guerra Fria tenha acabado, a nossa elite intelectual continua a pensar que o mundo ainda se divide em dois blocos ideológicos. Isto aplica-se a parte do sistema político e veja-se a forma como reagiu o PCP.
A Ucrânia está em plena viragem e iniciou a transição pós-comunista, que será um processo penoso, a exigir ajuda financeira e política dos europeus. Quanto a Moscovo, nada tem a temer da União Europeia, nem do ponto de vista estratégico nem do ponto de vista económico. A Europa não é um império e a Rússia, embora o seja, tem um problema de excesso de dimensão. Mas entre nós fala-se logo de guerra iminente (como se os russos pudessem ou quisessem).

 

Nos últimos três anos, a Europa cometeu um erro. Por se ter concentrado na crise das dívidas soberanas, negligenciou o “leste”, recusando-se a ajudar os países da região que também entraram em dificuldades financeiras. Houve mesmo tratamento agreste, quando as soluções não eram do agrado dos europeus ocidentais. Naquela parte da Europa, ninguém se vai esquecer tão cedo.
Na antiga Cortina de Ferro, que viveu a transição em que entrou agora a Ucrânia, haverá escassa paciência para hesitações de Bruxelas. Há também feridas (sobretudo na opinião pública) em relação à forma como estes países foram afastados do processo de decisão. Interior e exterior da zona euro é hoje a grande divisão que existe na União Europeia e a sobranceria ainda não acabou. Há incompreensões no ar e lembro outra, sobre a Hungria: aquele país está a um mês de legislativas e os conservadores (acusados pela nossa imprensa de fascismo e coisas piores) surgem nas sondagens com metade do eleitorado, embora seja difícil repetirem a maioria constitucional; nas últimas semanas, a frente de esquerda foi abalada por um pequeno escândalo e os eleitores socialistas estão a emigrar para a extrema-direita. O Jobbik subiu meia dúzia de pontos em poucos dias. Trata-se de um grupo de lunáticos, com 15% e sem poder, que acusa Marine Le Pen e Geert Wilders de serem perigosos liberais: os problemas da Europa, segundo estes loucos, são o sionismo e o liberalismo. Os conservadores do Fidesz jamais se juntarão ao Jobbik e é pena que nos nossos jornais haja dificuldade em distinguir fronteiras e tudo seja misturado de forma básica.  

publicado às 12:25




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