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Memória do eclipse

por Luís Naves, em 20.03.15

Lá fora brilha um sol que perdeu força, como se às suas intensas fornalhas faltasse subitamente o combustível. No recreio do colégio ouvem-se os gritos das crianças que brincam e, por todo o lado, paira o rumor da cidade que já trabalha, alheia ao fenómeno. O eclipse parcial transforma ligeiramente o mundo e quase não se nota.

Em Agosto de 1999, tive a imensa sorte de poder assistir ao vivo a um eclipse total do Sol. A totalidade durou dois minutos e dez segundos e foi uma experiência difícil de descrever, demasiado estranha, como se de repente tivesse sido transportado para outro planeta. Os astrónomos que eu e a K. seguíamos, numa estrada rural da Hungria, perto do Lago Balaton, montaram os seus telescópios num local perfeito: era um ponto ligeiramente mais elevado, de onde se avistava toda a planície. As condições de observação foram as ideais e, à medida que o eclipse parcial progredia, as nuvens dissiparam-se.

O lento avanço da Lua através do disco solar foi parecido com o que vimos hoje, nada de verdadeiramente sensacional. Quando o Sol ainda estava tapado a 99 por cento, a sombra do satélite produzia uma luminosidade pálida por toda a terra à nossa volta. De súbito, tudo mudou. A totalidade foi uma transição instantânea, sendo difícil descrever a sensação de irrealidade e estranheza: a temperatura baixou, soprou um vento repentino e a luz modificou-se, os animais ficaram agitados e uma criança de colo começou a chorar sem razão. À distância de muitos quilómetros, 360 graus à nossa volta, via-se um halo dourado, que era a zona para além dos limites da sombra. Essa faixa iluminada formava um halo circular de pequena espessura e o restante céu transformara-se num imenso disco cinzento. Pode ter sido ilusão minha, mas lembro-me dos tons de púrpura. Pelos telescópios com filtros víamos um círculo negro acidentado: distinguiam-se claramente as montanhas da Lua e pelas irregularidades da esfera parecia escorrer uma lava brilhante, aquilo a que os astrónomos chamam ‘lágrimas do Sol‘. A imagem poética parece exacta, pois trata-se de um fenómeno óptico semelhante a um líquido escorrendo por uma superfície imperfeita. Depois, quando acabou a totalidade, o mundo tornou-se de novo desbotado e macilento, embora já familiar. Estávamos de novo no planeta Terra, no exterior do mundo das sombras.

publicado às 09:58




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