Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]




Luz de Primavera

por Luís Naves, em 10.03.15

Igual a uma tia minha, até falando como ela, a senhora idosa dizia a uma amiga que isto estava pior do que no tempo da guerra. Não percebi de que guerra falava e pouco me importou, não devemos ouvir as conversas alheias e a senhora, com ar distinto, nem sequer falava em voz alta, embora se queixasse.

Não será conversa invulgar ou desabafo exagerado, pois nunca se viu tal desânimo. O pessimismo tomou conta da sociedade, entrou-nos na pele, espera sempre desilusões renovadas e criará porventura um resultado de beco-sem-saída. Durante longos invernos acumula-se a nostalgia e os primeiros dias de Sol deviam servir para libertar toda essa inquietação, mas as sombras mais densas custam sempre a passar.

Lá fora, no jardim, uma luz de veludo atravessava o arvoredo e, através do lago artificial, flutuavam pequenos sóis cintilantes. Ao fundo, havia flores brancas e o azul delicado do imenso céu. Quando saí para a rua, talvez por impressão errada, os olhares cansados evitavam o brilho precoce, depois senti um encontrão sem cortesia, observei durante longos minutos a multidão atravessando excessivamente as passadeiras agitadas, cada pessoa com o peso do mundo aos ombros, que é muito peso para se levar. Havia também a dança do chega-te-pra-lá dos carros, o frenesim da tarde luxuosa que se espreguiçava, o tempo a deslizar já sem fôlego. Poucos paravam para contemplar a respiração do dia: só então me perguntei se era o único transeunte admirado com a beleza despida que se reclinava à minha frente.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 18:56




Links

Locais Familiares

Alguns blogues anteriores

Boas Leituras