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Lisboa antiga

por Luís Naves, em 03.11.15

Como será Lisboa daqui a cem anos? Provavelmente, não haverá diferenças assim tão extraordinárias. Imagino que a paisagem seja parecida com a actual, embora neste texto surjam “torres em Almada” e “casas flutuantes”. O futuro tentará preservar o casario antigo, haverá talvez a velha cidade com uma linha de horizonte idêntica à actual, cores semelhantes, particularmente belas ao pôr-do-Sol.

A cidade de 1900 não seria dramaticamente diferente da actual: tinha transportes públicos, eléctricos de superfície e carros puxados a cavalo, navios a vapor ancorados no rio, lojas, fábricas e escritórios. Os cavalheiros vestiam casaca, calças, com grandes gravatas coloridas e colarinhos apertados, chapéus de algum espalhafato, bengala. A vestimenta das senhoras era diferente, com saias longas, chapéus extravagantes, desconfortáveis espartilhos. Mas a maior diferença nas vestimentas surgia entre a moda do povo e a das elites, algo que hoje não se vê, embora, obviamente, haja diferenças de qualidade entre a roupa dos ricos e a dos pobres. Mas, enfim, vista a certa distância, a Lisboa de 1900 não devia parecer tremendamente diferente da actual, tirando as vias rápidas com carros velozes, os aviões a sobrevoar as alturas, os prédios altos da parte moderna e as espectaculares pontes através do rio. A dimensão era outra diferença, pois há prédios de habitação onde antes havia frescas hortas e plácidos arrabaldes rurais.

A percepção dos contemporâneos sobre o seu próprio mundo é de certa normalidade na evolução das coisas: em 1900, as pessoas compravam jornais e trocavam boatos sobre a situação política, viviam em ritmo lento, mas tinham os seus círculos de amizades e a naturalidade da vida social, passeavam pelos parques e à beira-rio, tinham cães e gatos, levavam as crianças à escola. Em cem anos, as classes sociais esbateram-se e triunfou a classe média, extinguiram-se os intelectuais do estilo de antigamente, as mulheres adquiriram conhecimentos e direitos, ninguém hoje prescinde da liberdade, já não existe império, não se aceita facilmente violência urbana, a longevidade é maior e a medicina dificultou a morte. As pessoas são mais instruídas e têm menos ilusões, mas serão assim tão diferentes?

publicado às 12:25




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