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Jornalismo

por Luís Naves, em 06.09.15

Frenesim de escrita para o Observador. Espero que publiquem o texto. Andei armado em fotógrafo e repórter. Começo a reportagem com o pedaço de documento português que estava no chão, no lixo do novo centro de registo de Roszke, na fronteira com a Sérvia. Talvez seja um sinal da complexidade das redes de traficantes que estão a controlar uma parte deste drama. Quantos terroristas estarão a entrar na vaga humana? Muitas caras são de poucos amigos; alguns dos migrantes não querem falar, recusam registo, tentam resistir aos polícias, não querem ser fotografados, olham para os jornalistas com desprezo. Outros são simpáticos e sofreram horrores, aceitam tudo docilmente, até serem influenciados pelos outros. A confusão é total na Hungria e pergunto-me como seria o comportamento da sociedade portuguesa perante uma calamidade destas, mais de três mil pessoas a entrarem diariamente pela fronteira, multidões à solta, a perturbação da vida normal dos cidadãos, para mais com condenações pouco racionais vindas de todo o lado.

Acabo o texto do Observador em dificuldades. Já não tenho idade para isto, já não consigo escrever este tipo de texto e estou ansioso com a desactualização permanente do que escrevo. As coisas mudam de hora a hora, estamos num nevoeiro de acontecimentos confusos e numa bolha linguística. O que me leva a um tema que li num livro sobre a I Guerra Mundial do ponto de vista dos países da aliança central: os húngaros eram acusados de atrocidades porque os soldados viviam num processo de ‘alienação linguística’, pois não falavam as línguas das zonas do império onde estavam destacados e quando as pessoas não se entendem têm medo umas das outras. Aqui é a mesma coisa: a bolha linguística húngara vê-se nas caras apreensivas dos migrantes que atravessam a fronteira: parecem ter medo, não percebem o que lhes é dito e bastava colocar nestes centros de acolhimento agentes que falassem línguas, sobretudo inglês. Mas é tudo em húngaro. E onde está a sociedade civil?

publicado às 20:58




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