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História de duas cidades

por Luís Naves, em 12.01.24

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Esta história inteiramente verídica passou-se na Transcarpátia, numa época em que esta região distante ainda era dominada por barões empobrecidos que gostavam de desafiar o poder real. Duas forças fracas deram origem a uma certa autonomia dos burgueses, que tratavam com liberalidade dos seus assuntos e nomeavam livremente os seus juízes. O estranho caso passou-se poucos anos depois da grande peste, que matara muita gente, por isso havia escassez de habitantes e as famílias sobreviventes tinham abundância de terras e dinheiro. Nesse tempo, os enforcamentos de facínoras eram talvez o único entretenimento disponível e as autoridades de Kerekdomb, lideradas por um sapateiro, andavam preocupadas com a falta de enforcados. O último condenado remontava ao período anterior à pandemia, o que era inaceitável.
Quis o destino que o sapateiro encontrasse numa estalagem da estrada de Monos o principal autarca de Farkaslak, um tal Ravasz. Conversaram, trocaram informações e, após uns valentes copos da melhor palinka, Ravasz confessou que tinha na sua cidade um condenado à morte.
"Compramos", disse o sapateiro. "Levamos o condenado para a nossa terra e fazemos lá o enforcamento".
Ravasz era um negociador duro, fez-se bem caro, conseguiu esmifrar o autarca vizinho e estabeleceu-se uma transação de 10 mil florins, que era uma boa soma na altura, equivalente a uma dúzia de luíses de ouro ou uns quarenta marcos de prata.
O problema é que em Farkaslak não havia condenados. Ravasz voltou à sua terra, colocou o problema ao juiz que tinha conseguido eleger e este sugeriu que se vendesse o tonto da cidade, János Piskóta, que era um pobre ingénuo que não fazia mal a ninguém, mas de quem toda a gente se ria devido ao aspeto monstruoso e estúpido. Metade do dinheiro dos burgueses de Kerekdomb seria gasto em melhorias na cidade, o resto dividido de forma justa entre Ravasz e o juiz, à razão de três partes para o primeiro e uma parte para o segundo.
O desgraçado Piskóta assinou um contrato de trabalho vitalício, sem saber bem o que fazia, depois foram discretamente fabricados os papéis da condenação à morte. Por precaução, foi organizada uma campanha de descrédito do pobre diabo e, quando veio a delegação de Kerekdomb buscar o prisioneiro, não houve resistência, pelo contrário, as pessoas aplaudiram aquela venda, riam-se do condenado e achavam justas as melhorias prometidas.
Kerekdomb organizou um magnífico enforcamento, com centenas de forasteiros, grandes consumos nas tabernas, feira agrícola e muita animação. Até o barão veio ver, com toda a sua importante família. O espetáculo foi apreciado por todos.
Neste ponto, o leitor esperava um golpe de asa do autor, mas infelizmente estou limitado pela verdade. Não houve qualquer súbita reviravolta do destino ou milagre, a população não se comoveu, o barão não indultou o inocente, nem se soube de uma inesperada invasão turca que mobilizasse o enforcado para o exército, pois para isso faltavam cem anos.
Piskóta foi enterrado numa campa sem marcas e Kerekdomb teve de esperar três décadas pelo enforcamento seguinte, que calhou a um ladrão de cavalos cujo nome a história não fixou.
Farkaslak gastou todo o dinheiro do enforcado, mas em vez de se tornar a maior cidade da Transcarpátia, como ambicionavam os seus burgueses, foi definhando sem rumo, até se transformar numa miserável aldeia, que um exército otomano invasor, ali de passagem, decidiu incendiar sem qualquer motivo, em 1534 ou 1535, se não me engano.

imagem gerada por inteligência artificial, Bing Image Creator

publicado às 11:50



Autores

João Villalobos e Luís Naves