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Há bons romances que envelhecem mal

por Luís Naves, em 06.08.15

Há bons romances que envelhecem mal, mas é misterioso o mecanismo que leva às omissões da sinceridade, às personagens falhadas ou às circunstâncias antiquadas do enredo. Um texto de ficção pode ser brilhante em muitas das suas características e falhar globalmente devido a certos diálogos, a uma figura improvável (os autores homens costumam falhar nas suas mulheres fatais), a incompreensíveis quebra de ritmo ou ao excesso didáctico e pedante. Por vezes, há detalhes fantásticos que o autor não conseguiu explorar, talvez por razões políticas ou pelo facto de envolver assuntos delicados da sociedade da época, que a censura (outrora real, agora social) nunca deixaria passar. Mas há fracassos cuja culpa é exclusiva dos autores: o medo da controvérsia e as obsessões pessoais podem estragar ideias fantásticas. Cinquenta anos depois da escrita, os temas que interessam são outros, já ninguém quererá hoje saber de problemas existenciais, conflitos religiosos ou dilemas de classe. Na realidade, é fácil estragar um bom romance para a geração seguinte: basta fugir à ideia essencial e andar por ali às voltas, insistir numa personagem inverosímil, embelezar o sórdido, moralizar em excesso, tentar escrever para os amigos e querer impressionar os críticos, evitar o que se conhece melhor.

publicado às 19:18




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