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Frequências desencontradas

por Luís Naves, em 24.08.18

Chegámos a Lisboa há uma semana e já dá para sentir o desânimo. Em Portugal, parece que se infiltra no corpo a vontade de não bulir um músculo. Tudo está pré-determinado. Julgo que estamos a assistir ao final de uma época: representados e representantes divergiram de tal forma, que passaram o ponto de não retorno. A situação lembra a de um filme razoavelmente mau, com John Wayne, que vi na televisão, Inferno Branco, onde um avião que aterrou no gelo é procurado por uma frota de aparelhos que procuram seguir sinais de rádio cada vez mais fracos. A metáfora aplica-se à realidade contemporânea: por vezes, é possível ouvir as mensagens de um lado ou do outro, mas no essencial as duas partes do conflito falam em frequências desencontradas. As elites no poder estão dispostas a não ceder um milímetro e não vão aceitar a legitimidade de qualquer revolta eleitoral; os eleitores, por sua vez, já não acreditam em nada do que ouvem, e estão cinicamente alheados, à espera de que o edifício se desmorone. Julgo de daqui a uns anos vamos discutir se votar é assim tão importante. Até lá, as instituições vão separar-se das populações que deviam servir, dirigidas por elites iluminadas que não respondem perante os eleitores. Estes só terão direito a escolhas rigorosamente idênticas. O povo perderá a voz. Portugal infelizmente já funciona desta forma, tornou-se um protectorado da União Europeia, que por sua vez é o triunfo do Castelo de Kafka, indiferente ao que acontecer aqui, desde que haja obediência a uma hierarquia com agenda misteriosa. Portugal é hoje um país a fingir, o pátio das cantigas no seu esplendor.

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publicado às 12:04




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