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Fora da lâmpada

por Luís Naves, em 22.08.14

Há autores para quem o mundo é a preto e branco e que defendem essa ideia simples chamando idiotas aos que discordam. Deviam olhar para o caso do Estado Islâmico (ou Estado Islâmico do Iraque e do Levante ou Califado). Vejo comentadores que defenderam a invasão do Iraque a defenderem agora que esta é uma ameaça existencial de um grupo terrorista. E, no entanto, a organização tem ideologia e capacidade de conquista, ocupa território e recruta simpatizantes, funcionários e soldados. O conflito subiu de patamar e estamos perante um Estado que mantém fronteiras, exército e financiamento.

A estratégia do EI passa por atrair o máximo de americanos ao combate no terreno, onde haveria inúmeras baixas. Na realidade, o EI é muito mais perigoso para o Ocidente do que os talibãs do Afeganistão, que tinham formado um pequeno Estado radical, mas muito pobre, e que, após uma interrupção armada de 13 anos, estão de novo prontos para tomar o poder naquele país.

Os americanos perderam o Iraque e a intervenção de 2003 foi um erro crasso, como preveniram autores então acusados de idiotas. Ironicamente, os melhores amigos da América na região, os sauditas, ajudaram a financiar este grupo, pelo menos no seu início. O Estado Islâmico do Iraque e do Levante era potencialmente útil para os interesses da monarquia saudita, pois punha em causa o poder de Bachar al-Assad na Síria. Claro que o génio saiu da lâmpada e, como na história de Aladino, é preciso ter cuidado com o que se deseja. De certa forma, a América vai agora ajudar Bachar, aliando-se a Teerão, outro inimigo (pelo menos, assim nos contaram) para ser possível salvar ainda alguma coisa no Iraque, que se prepara para um conflito de anos. O mundo islâmico que conhecemos está a mudar, no meio de um banho de sangue.

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publicado às 11:20


1 comentário

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De AEfetivamente a 26.08.2014 às 18:52

Muito bom. Tudo isto tem tido uma dose de ironia do destino perfeitamente incontrolável. As alianças têm sido caóticas, desde há longa data, porque desprovidas de reais valores a não ser o poder, domínio, negócio e mesmo desenrascanço e desprovidas de qualquer sentimento de serviço público, humanismo ou visão a longo prazo. Os erros fazem-se, pagam-se caro, repetem-se, nada se aprende e aprendeu. Caos absoluto, de todos os lados, se pensarmos em estratégias, se um lado, e humanidade, de outro.

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